A casa estava finalmente vazia, todos os convidados já haviam se retirado. Lynn e Edwart caminhavam de mãos dadas pelo corredor, até o quarto. Ainda faltava muito para o sol nascer e Lynn estava ansiosa por sua noite de núpcias.
Mas ela sabia que a ansiedade não se restringia somente a si, podia sentir a energia nervosa que emanava de seu marido.
Para Edwart as portas duplas eram como o ápice da noite. Sem hesitar pegou Lynn nos braços e abriu a porta devagar. O rangido pareceu-lhe um som extremamente erótico. A lua cheia iluminava o quarto atrás da janela, lançando sua luz prateada sobre a cama de casal.
As mãos ansiosas de Rhoslyn envolveram seu pescoço, enquanto o puxavam para mais perto, para um beijo apaixonado. Ele se deixou envolver pelos braços macios e a puxou para ainda mais perto.
_Roupas demais, ela resmungou, sem se afastar.
Com um sorriso satisfeito Edwart começou a desabotoar a casaca, ao mesmo tempo em que lidava com os laços do vestido azul.
Com uma mão, Lynn soltou seu cabelo do penteado desconfortável e balançou a cabeça, para que eles caíssem livremente pelas costas. Sua outra mão está ocupada com o cordão das calças negras.
Ele corria as mãos pelo corpo dela, tentado sentir seu corpo, cada curva, cada detalhe da pele macia.
Rhoslyn podia sentir suas mãos buscando o contato, e ansiava por seu toque. Esquecendo-se da paciência, rasgou o que restava do vestido, atirando longe os farrapos. O encontro de suas peles foi febril e poderoso.
Vendo quão impaciente sua esposa estava, Edwart terminou de se despir, para sentir ainda mais o seu calor.
Suas bocas finalmente se unem, inflamadas, as línguas entrelaçadas, as mãos afagando cegamente os corpos um do outro. Em segundos, estavam do outro lado do quarto, aos pés da enorme cama revestida de seda vermelha.
Finalmente, não havia mais nada entre seus corpos e a cama era um convite irrecusável para a paixão que os assolava.
As mãos de Rhoslyn correm para o cabelo dele, enquanto sua boca descrevia a curva do seu pescoço. Respirando fundo, ela sentiu o cheiro dele penetrando em sua consciência enquanto o peso do corpo forte a prendia no colchão.
As mãos de Edwart deslizavam pelo seu corpo, sua língua alcançando os seios.
O contraste entre o corpo quente sobre o dela e os lençóis frios deixavam Rhoslyn em chamas e quando a língua atingiu a pele sensível dos seios, suas costas se arquearam involuntariamente. Apenas gemidos saiam de seus lábios.
Rápido como um suspiro, ele segurou-a pelos ombros e trocaram de posição. Agora, ela se acomodava sentada sobre seu abdome, os cabelos se espalhando pelo tórax musculoso, fazendo cócegas em seu peito.
_Agora é minha vez, ela sussurrou e se inclinou para tomar um dos mamilos escuros entre os dentes, brincando com ele e o mordiscando de leve. Seguiu descendo os lábios pelo tórax e abdome e então para a pélvis.
Ele soltou um gemido e sentindo a respiração quente dela na virilha, liberada por uma risada matreira. O desejo era imensurável.
O rosto dela roçava seu membro pulsante e então seus lábios depositaram um beijo leve na virilha antes de começar a subir novamente, para brincar com o outro mamilo, mas seu controle era quase inexistente agora. O gosto de sangue em sua boca provocou um frenesi, seu corpo reage, exigindo satisfação.
Edwart não pôde mais se conter, a fúria da paixão tomando conta de seu corpo, assim como do dela. Com outro movimento rápido, colocou Lynn contra o colchão novamente e se ajoelhou por entre as pernas brancas, tomando-a para si de uma só vez.
_Não há mais como fugir, minha rosa negra... Estamos unidos de todas as formas possíveis, agora.
_E quem disse que eu quero fugir de você, senhor meu marido?!
Após o desjejum, Sara e Ceridwen foram a um passeio matutino. A natureza à volta se revelava sob o brilho do sol, revigorando as duas feiticeiras. Aquele era o primeiro momento em que mãe e filha ficavam a sós sem pressa.
Às margens do lago, Sara sentou-se em um banco de pedra, ao que Ceridwen deitou-se e colocou a cabeça em seu colo. A mãe passou a afagar os cabelos da filha. Um silêncio agradável pairou no jardim que Abbott fazia questão de manter florido, até que as palavras bruscas de Ceri interromperam aquela paz.
_Como foi a noite de núpcias com o vampiro?
_Você o chama de vampiro com tanto preconceito... Não fale assim, por favor. Elryk é um bom homem...
_Ele é meu pai?
_Não querida. Nem eu mesma sei quem é seu pai. Mas tenho certeza de que não é ele.
_Você vai querer que eu o chame de pai agora que se casou com ele? – Sara deu de ombros.
_Eu apenas quero que você o trate com mais respeito e consideração.
_Mas ele é um vampiro mãe! – a garota levantou-se de forma abrupta.
_E nós somos bruxas! Qual a diferença? – Foi a vez de Ceridwen dar de ombros, seus cabelos castanhos, iguais aos da mãe, caindo por sobre o ombro. – Se você não parar com isso, vamos todos acabar ardendo na fogueira!
Ceridwen fechou a cara.
_Querida, Elryk é o meu maior e verdadeiro amor. Queria que você compreendesse e aceitasse isso. Um dia você também se apaixonará.
Os olhos de Ceridwen soltavam chispas. No céu, uma densa nuvem negra se aproximou de onde as duas estavam.
_EU NUNCA ME APAIXONAREI POR UM VAMPIRO! – Então um raio atingiu uma árvore que pegou fogo instantaneamente.
_Ceridwen, pare já com isso! Controle sua têmpera. – uma chuva grossa começou a cair. – Nunca é uma palavra muito forte. Um dia, você pode pagar por sua língua.
_Não me rogue uma praga mãe! Prefiro arder na fogueira a casar com um vampiro! – Ceridwen tomou impulso e alçou vôo.
_Ceridwen!
Cabisbaixa, Sara entrou na mansão e foi para seu quarto. Seu marido já estava desperto.
Como Lucian, Elryk não precisava mais de tanto descanso e passava boa parte da tarde em seu quarto de janelas vedadas. Vendo a preocupação prendendo os ombros de sua pequena feiticeira, a aproximou-se de Sara e abraçou-a beijando levemente seus cabelos.
_Está tudo bem, meu amor? Você me parece agitada, sinto seu coração descompassado. Aconteceu alguma coisa durante o dia?
_Tive uma conversa muito firme com Ceridwen. Acho que exagerei...
_Exagerou? Como assim?
_Acabei lhe rogando uma praga.
_Praga de mãe pega! – exclamou Elryk, estremecendo de brincadeira. Sara riu, sem humor e o abraçou, escondendo o rosto em seu pescoço frio.
_Ela não aceita nosso casamento. Fico muito triste por ela tratá-lo com tanto preconceito.
_Minha querida, ela diz isso porque nunca se apaixonou. Quando ela amar alguém como nós nos amamos, ela vai entender que nada importa quando se está apaixonado.
_Espero que sim. – Após um beijo cheio de amor e ternura, ela se forçou a dar um passo atrás, afastando-se dele. – Tenho de ir. Os anciãos do Concílio estão me esperando.
_Gostaria de poder ir com você.
_Não, meu amor. A reunião do Concílio é para bruxos apenas.
_Eu sei, mas queria estar lá para protegê-la.
_Não preciso de proteção contra meus irmãos, Elryk. Mas se você se sentir melhor, Lucian estará ao meu lado.
_Sim, eu fico mais tranqüilo. Agora vá. Aqueles anciãos me pareceram meio mal-humorados.
Na casa vizinha, a mansão da família Graham, os feiticeiros mais poderosos e influentes daquele mundo aparte se reuniam no grande salão de baile. Sara entrou e foi se juntar a Lucian no centro da pequena multidão.
_Há muito que uma reunião desta magnitude não é convocada. – disse o mais velho dos anciãos, um homem distinto de longas barbas brancas, que facilmente poderia ser confundido com o Mago Merlin das lendas Arturianas. – Talley, minha criança. Diga-nos agora, por que nos chamou aqui.
Sara engoliu em seco e tomou a frente. Lucian seguiu-a, mas ficou um passo atrás.
_Agradeço muito por estarem todos aqui. De verdade. Como devem imaginar, meu casamento foi apenas um pretexto para a chegada de tantos de vocês ao mesmo tempo. A verdade é, meus irmãos, que estas pessoas – ela apontou para Lucian – que os acolheram, correm grande perigo.
_Você nos chamou aqui para ajudar um bando de vampiros? – alguém gritou entre a audiência, cuspindo a última palavra.
_É mais do que isso, irmão. O perigo que ameaça esta família estende-se também a nós.
_Fale sobre esta ameaça, criança. – atalhou o ancião.
_É uma recém-criada. Uma vampira sem treinamento e extremamente vingativa. Ela tem um ódio mortal por Rhoslyn e também por Edwart, que a rejeitou.
_Uma mortal rejeitada já seria um grande problema, mas uma recém-criada...
_Sim. E com a Inquisição sempre tão presente... Judith já denunciou a família McDonovan para a igreja. Graças à Dannan que os Cavaleiros conseguiram tomar conta da situação. Mas foi por pouco. E depois ela espalhou pela cidade a verdade sobre eles.
_Entendo. – o ancião cofiou sua longa barba e sorriu para Sara. – Você foi inteligente, Talley. Um casamento Católico com certeza atenuou a situação.
_Obrigada, senhor. Mas o fato é que agora precisamos nos livrar de Judith Abbott, antes que ela perceba o porque disso tudo.
_E o que você quer de nós?
_Quero que vocês façam com ela o que fizeram comigo.
_Você quer que o Concílio purifique a mulher vampira? – exasperou-se outro ancião.
_Exato. – Naquele instante, a pequena multidão irrompeu em brados furiosos, alguns protestando, outros apoiando.
_Isso é um ultraje! – disse o segundo ancião. O poder de Dannan não é para ser usado por qualquer coisa. O que nos pede, Talley, não diz respeito à Deusa.
_É claro que diz! Judie é uma ameaça a todos nós, e aos humanos também e nós juramos protegê-los!
_Isso é verdade, atalhou o feiticeiro mais velho ainda vivo, Lecabel. – Mas a mulher vampira é de responsabilidade de seus iguais, não nossa.
_No que me diz respeito, essa mulher não merece nossa atenção, muito menos que desperdicemos as bênçãos da Deusa. Digo para irmos embora.
_Acalme-se, irmão. Talley é uma das filhas queridas de Dannan, e se ela nos pede ajuda, devemos ajudar. Tanto quanto nos for possível.
_Obrigada senhor Lecabel... – o ancião levantou uma mão magra, interrompendo-a.
_Não faremos o que nos pede, pois uma alma a ser purificada precisa querer a purificação e precisa seguir a Deusa por vinte anos, como pagamento pela benção. E não creio que essa Judith estará de acordo com nada disso...
_Não. De fato, não. Mas como eu nunca soube disso?
_Você não precisava saber, minha filha.
_Mas então... Não há nada que possamos fazer?
_Há sim Talley. Uma poção pode remover a maldição dos Andarilhos. É magia muito antiga e poderosa e não é qualquer um que pode lidar com ela.
_Mas há esperança, então?! Quem é a pessoa que pode fazer esta poção?
_Khamael.
Por um momento, ninguém disse nada. Surpresos que fosse a frágil figura do velho Khamael, a única capaz de ajudar.
Sara, por sua vez, permanecia calada pelo choque de sua esperança partida, pois Khamael era o ancião que se opusera a ajudar desde o primeiro momento.
_Pois eu não farei. Disse o homem em questão. – Não perturbarei os Espíritos antigos por isso.
_Então teremos um problema aqui, meu caro senhor. – Lucian se manifestou pela primeira vez desde o inicio da reunião.
_Lucian de Lioncourt. – disse o ancião Lecabel, com um sorriso. – É bom vê-lo, meu amigo. Tem algo a dizer em defesa da causa de Talley.
_É bom vê-lo também, Lecabel... Sim, tenho algo a dizer. Meu senhor Khamael, devo lembrá-lo de que está preso ao preceito de lealdade ao anfitrião. Você deve algo à pessoa que lhe concedeu abrigo.
_Eu não estava pedindo por abrigo! – rebateu o ancião.
_Lucian está certo, irmão. Você deve ajuda aos McDonovan.
_Não gostaria que nos ajudasse contrariado, senhor Khamael. – disse Sara, dando um passo à frente. – Seu poder é imenso, mas sua energia positiva fará tanto por nós, quanto ele.
_Não se iluda, menina. Eu a ajudarei, mas apenas por causa do preceito.
Sara soltou um suspiro resignado, mas sorriu. Teriam a ajuda necessária e era só isso que importava.
_Estou a sua disposição para o que precisar, senhor. – Ela disse, afastando-se de Lucian.
_É bom mesmo, menina. Essa poção vai me dar muito trabalho. Serão quatro dias muito longos.
_Quatro dias?!
_Você quer fazer o impossível e ainda quer que seja rápido? – ralhou o ancião.
_Perdoe-me senhor Khamael.
_Crianças!
Sara segurou uma risadinha e fez um sinal para que Khamael passasse pela porta antes dela.
_Gostaria de apresentá-lo formalmente aos donos da casa, senhor. Pode vir comigo?
_Certo...
Como de costume, os vampiros estavam reunidos na sala de musica, mas naquele inicio de noite, não havia melodias alegres atrás daquelas portas.
_Boa noite a todos. – Sara disse, solene. – Rhoslyn, Edwart. Gostaria que conhecessem Khamael, um dos anciãos feiticeiros. Ele nos ajudará com a poção para Judie.
_Poção? Pensei que você tivesse falado de um ritual, Sara. – Lynn questionou, preocupada.
_Sim... Bem, eu estava mal informada, peço desculpas a vocês.
_O ritual mencionado pela sacerdotisa é apenas para pessoas que queriam a mudança, que queiram ser purificados e exige um alto preço do indivíduo.
_E a poção fará a mesma coisa...? – questionou Edwart.
_Esperamos que sim.
_Esperam? – indignado, Telêmaco levantou-se da poltrona em que estava e avançou para o velho. – Vocês se proclamam tão poderosos e agora vem me dizer que todo nosso esforço pode não adiantar de nada?
_Controle-se, amigo. – Augustus pousou uma mão calmante no braço de Telêmaco, e o fez sentar-se novamente.
_Esta é uma magia muito poderosa, mas muito antiga também. O conhecimento de como invocá-la está quase esquecido, mesmo por nós, os mais velhos. Não posso garantir que o efeito será o desejado.
_A poção pode ser testada, antes? – Elryk falou de repente, assustando a todos.
_Acredito que sim... – o ancião ficou pensativo por um instante. – Não seria possível fazer apenas uma dose, então penso que uma parte poderia ser destinada à um teste de eficiência, sim. Mas... Se ela funcionar, o vampiro que servirá de cobaia não poderá voltar a ser um Filho da Noite.
_Por que não? – Lynn perguntou, sem pensar.
_Seria uma ofensa à Deusa. – Sara respondeu, sem desviar os olhos de Elryk. Khamael apenas assentiu. – Elryk... no que está pensando?
_Não... Não é nada. Esqueça isso, está bem?! – então ele a beijou na testa e saiu.
_Eu... lhe agradeço de todo o coração por sua ajuda, senhor Khamael. E ofereço ao senhor minha casa e meus criados para o que precisar.
_Certo, certo. Agora vou me recolher. Talley, esteja pronta para me ajudar amanhã bem cedo e traga aqueles pelos de gato que costumava ter, se é que não os usou todos em suas brincadeiras.
Depois que o velho havia saído de vista, Sara virou-se para os vampiros e sorriu, sem jeito.
_Me desculpem por isso. Ele tem um temperamento difícil.
_E algo me diz que não está feliz em nos ajudar... – apontou Augustus.
_Não ele não está. Nem um pouco, na verdade, mas Lecabel ordenou-lhe que nos ajudasse, então ele o fará. Seu status perante o Concílio e todo o povo é importante demais pra Khamael, para que ele se arrisque desobedecendo a uma ordem direta.
_E é só isso que importa...
_Sim. Agora, me dêem licença, por favor. Preciso ver o que meu marido está tramando.
Ao fechou a porta atrás de si, Sara soltou um suspiro profundo. Graças a Deusa havia um modo de remediar a situação. Quando ergueu a cabeça e olhou através do corredor, viu Elryk no que parecia ser uma discussão acalorada com o feiticeiro ancião.
_Elryk? – chamou. Khamael, então virou abruptamente o rosto para olhá-la e logo em seguida se afastou pelo corredor. Sara andou até onde seu marido permanecera parado. –Elryk, você não vai fazer isso! Eu não vou permitir!
_Sara ouça-me, por favor!
_Não Elryk! Não quero que você abra mão de quem você é por minha causa! Não vou permitir! repetiu.
_Meu amor! – ele a abraçou. – Antes de ser um vampiro, eu sou primeiro e principalmente um homem, com defeitos, qualidade e paixões. O predador é apenas uma parte de mim, que me ajudou a ser o que sou hoje, mas apenas uma parte... – apertou-a mais junto a si e beijo-lhe os lábios com uma ternura tão grande que trouxe lágrimas aos olhos de Sara. – Quero fazê-la feliz, incondicionalmente.
_Ah meu querido... Você não precisa desistir de sua imortalidade por mim. Eu posso me manter jovem por muito tempo, para ficar ao seu lado.
_Aí está o X da questão, Sara! Já vivi tempo demais. Estou farto disso tudo! Quero envelhecer ao seu lado, quero lhe dar filhos, quero... Quero morrer, bem velhinho ao seu lado.
_Se é o que você quer Elryk, acatarei sua vontade de bom grado. Tudo o que importa para mim é ter você ao meu lado.
_Obrigado, minha querida. Vamos voltar para a sala?