quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Obrigada!

Então é isso, meus queridos. Lynn e Edwart tiveram seu final feliz. Espero vocês no novo blog:http://amaroutravez.blogspot.com/
Thiago e Sarinha, obrigada pelo apoio e pelos comentarios.


domingo, 6 de setembro de 2009

Epílogo

Missa do Galo, 24 de Dezembro de 1742
Catedral de St. Mungos, Glasgow, Escócia.

_Rhoslyn, por favor, me explique novamente por que viemos aqui hoje?
_Augustus, fale baixo, por favor. – atrás deles, vários ruídos pedindo silencio se fizeram ouvir. – Você deveria se envergonhar! Viu Cristo nascer e morrer, bem como Sua religião surgir, mas não tem o mínimo respeito por ela.
_Não se esqueça que eu não só vi a religião nascer como a vi definhar nas mãos dos homens. Não tenho mais respeito nenhum pela Santa Sé. Não muito mais há ver com o que Cristo pregava.
_Você deveria ser padre, aí poderia corrigir isso!
_Eu já fui. O celibato me deixou entediado.
Uma risada abafada soou do banco de trás e Lynn lançou um olhar zangado para Telêmaco, que estava sentado entre duas senhoras miúdas de cabelos muito brancos e roupas negras.
_Desculpe, Lynn. – ele sussurrou.
_Desculpe-se prestando atenção! – ela rebateu, tão baixo que apenas um vampiro poderia ouvir.
_Como se eu já não soubesse o que aquele velhinho de saia vai dizer... – resmungou o grego.
_Pelo amor de Deus, Telêmaco! Cale-se! – Foi a vez de Edwart se exasperar e virar para trás, sibilando as palavras.
_Até você Eddie?! Esse mundo está perdido!
Augustus então explodiu em uma gargalhada e cada uma das dezenas de cabeças dentro da catedral virou-se para olhá-los.
_Vocês dois são impossíveis! – Lynn saiu da catedral batendo os pés, com uma carranca no rosto. – O pobre bispo estava prestes a engasgar de raiva!
Os dois vampiros milenares continuavam a rir desbragadamente, apoiando-se um no ombro do outro.
_Ora vamos, Lynn! – Edwart pegou a mão da esposa nas suas e beijou delicadamente o pulso translúcido – É Natal! Eles são dois idiotas! Alegre-se e vamos para casa comemorar!
_Eu deveria servir sangue morto a eles na Ceia, isso sim! – ela retrucou, emburrada. – Eu não perco uma missa do Galo desde que tive idade suficiente para saber ficar em silêncio!
_Isso significa muito para você, não é minha rosa? – Lynn assentiu e Edwart a abraçou. – Sinto muito. Quer voltar lá para dentro?
_E como eu vou encarar todas aquelas pessoas depois do vexame que aqueles dois me fizeram passar?!
_Certo... Então, vou prometer uma coisa a você: ano que vem, assistiremos a Missa do Galo na Catedral de São Pedro. Rezada pelo próprio Papa!
_Mesmo?
_Mesmo!
_Você é o melhor marido do mundo, sabia disso?
_Sabia. – Então ele pousou ambas as mãos ao redor de seu rosto e beijou-a com carinho. – E quanto a vocês dois, ele virou-se para os amigos, deveriam se desculpar com Rhoslyn! Vocês estragaram a noite para ela!
Telêmaco e Augustus se entreolharam e aos poucos, seus sorrisos zombeteiros desapareceram.
_Sentimos muito, Lynn. – disseram ao mesmo tempo, como duas crianças travessas pegas em flagrante.
_Sentem coisa nenhuma! – ela disse, mas sua zanga já diminuía.
_É verdade, acredite em nós! – rebateu Augustus. – Temos lindos presentes para você em casa...
_E... Acrescentou Telêmaco – Vamos cantar o Cântico de Glória para você!
_Aqui?
_Sim. – Novamente, depois de se entreolharem, os dois vampiros inspiraram juntos e começaram a cantar, suas belas vozes ecoando pela praça em frente à catedral.

Encostado em uma parede, Edwart observava sua família que comemorava o Natal.
Lynn estava linda, dançando no centro do salão com Ceridwen e Sara, todas com coroas de flores na cabeça e vestidos esvoaçantes, verde, vermelho e branco.
_Tão clichê! Exclamara Ceri, ao ver o lindo traje branco que sua mãe lhe entregava. – E aliás... Por que estamos comemorando o nascimento de um Deus que nem é o nosso?
_Porque o Natal é tempo de amor e união, Ceridwen. E toda festa que celebre o amor agrada a Danan. E porque é importante para Rhoslyn. Agora deixe de ser desmancha prazer e coloque o vestido. Ela e Abbott preparam uma ceia maravilhosa para nós!
Agora a jovem feiticeira parecia estar se divertindo. Por todo lado havia sinais de festa. Presentes caros e extravagantes estavam espalhados pelos sofás e os restos da maravilhosa ceia ainda permaneciam na mesa de jantar, pois Abbot e Trevor também estavam na festa, bem como Nasir, seu quieto criado de quarto, que com seu turbante impecavelmente branco e um copo de ponche, observava tudo e todos, para que nada saísse errado.
Edwart o havia dispensado de seus deveres nos últimos dias, para que ele pudesse pensar calma e friamente sobre deixá-los ou continuar a servir seu mestre vampiro. Ele decidira ficar.
Pouco a pouco as festividades terminaram. A proximidade da aurora trazia consigo a letargia para os vampiros e o cansaço para os humanos. Sara e Elryk caminhavam para a porta do salão de mãos dadas, rumo ao seu quarto. Ceridwen e Lucian haviam escapado para os jardins alguns minutos atrás.
_Gostaria de agradecer a todos. – disse o anfitrião, antes que todos se recolhessem. – Este foi o melhor Natal que esta velha mansão viu em muito tempo. Feliz Natal a todos!
_Feliz Natal. – responderam os outros em uníssono.

Ceridwen e Lucian trocavam beijos no jardim quando Edwart e Lynn passaram pelas portas francesas. O casal McDonovan entreolhou-se atônito e Edwart aproximou-se de seu velho amigo e bateu de leve em seu ombro. O casal de feiticeiros assustou-se e Ceri corou diante dos anfitriões.
_Edwart, nós... – Ceri começou, tropeçando nas palavras.
_Não há o que explicar, jovem. – O tom austero de Edwart deu certo medo e Ceri, que prendeu a respiração por um segundo sem tirar os olhos do vampiro mais velho.
_Nós sabemos o que é o amor – completou Lynn. – E do que somos capazes de fazer por ele – Ela fitou Edwart.
_Não irá brigar conosco? – perguntou Ceridwen.
_Claro que não minha querida.
_Edwart, você sempre ralhava com o Elryk e mamãe.
_Oh, criança! – disse Edwart, rindo. – Elryk é muito libertino. Ele não se contém, entende? Se o permitíssemos seria capaz de despi-la na sala mesmo. Desculpe falar assim, mas é a verdade. Quando está com Sara, ele não vê nada ao seu redor, inclusive se estão a sós ou não.
Ceri ficou em silêncio, sabendo que o que seu anfitrião dizia era verdade.
_Edwart e eu ficamos muito felizes por vocês! Não é meu querido? – Ela ergueu o rosto para fitar os belos olhos azuis.
_Claro, minha rosa! Confesso meu caro Lucian, que depois de Asenath, achei que nunca mais se apaixonaria de novo.
_A vida às vezes nos surpreende meu amigo – disse Lucian levantando-se e puxando Ceridwen consigo para dentro da casa. – O sol vai nascer logo. Vamos entrar?
A jovem feiticeira assentiu e passou sua mão pelo braço dobrado de Lucian.
_Meu amor, me parece que teremos mais um casamento na mansão. – comentou Lynn.
_Casamento? Não... Não precisamos de cerimônia nenhuma. – Ceri roçou o indicador no dorso da orelha do feiticeiro. – Viveremos juntos e seremos muito felizes com as bênçãos de Danan enquanto quisermos um ao outro. Você concorda Lucian?
_Claro que sim, meu bem – Ele beijou-a com doçura.
Edwart encarou sua esposa, embasbacado. Jamais imaginara que veria Lucian naquele estado novamente. O vampiro milenar e feiticeiro dedicado mostrava-se sempre calmo e prático. Apenas uma vez antes, Edwart o vira com aquele olhar sonhador. Era o mesmo brilho que ele dedicava à Asenath, a belíssima sacerdotisa da deusa egípcia Bastet.
Edwart e Rhoslyn permaneceram no jardim, admirando as mudanças de cor no céu.
_Edwart, eu estive pensando... Creta me parece um lugar interessante para se viver.
_Creta? Na Grécia? – ela assentiu – Por que isso agora, minha rosa?
_Bem, você está em Glasgow há seis anos já... Um ano a mais do que geralmente costuma permanecer em uma cidade. Isso quer dizer que está na hora de nos mudarmos.
_É verdade. Glasgow me trouxe tantas coisas boas nos últimos anos, - ele disse enquanto se encaminhavam para dentro da casa – que confesso que gostaria de ficar por mais tempo. Mas você tem razão Lynn. Está na hora de irmos. Há uma cidade em Creta, de frente para o Mediterrâneo, que acho que você vai gostar. Chama-se Paleohora.
_Gostei! Mas eu não falo grego...
_Eu a ensinarei, minha rosa.
_O que os outro vão fazer, depois que nos mudarmos?
_Sara e Ceridwen voltarão para Irlanda. Com certeza Elryk e Lucian irão com elas.
_Pensei que Sara e Elryk iriam para a Itália novamente...
_Eles iam, mas Sara se comprometeu a ser a mentora de Dougray Senka. Ele resolveu abraçar a velha religião.
_Eu lhe disse que ele faria bom proveito da poção. – disse ela, com ares de superioridade. _É sim... Augustus e Telêmaco provavelmente sairão pelo mundo sem destino certo, como costumavam fazer.
Lynn ficou em silêncio por alguns minutos, pensando.
_É estranho pensar em separar-me deles. São como minha família...
_É verdade, mas não se esqueça de que temos a eternidade para encontrá-los novamente.
_Nós viveremos felizes para sempre, não é, meu amor? – Ela se enroscou nos braços dele, cobrindo a ambos com os lençóis de seda de que Edwart tanto gostava.
_Sim, minha rosa. Literalmente.

*Fim*

Cap27

Elryk acordou ainda se sentindo cansado. Era como se não dormisse há décadas... O mundo parecia diferente, silencioso. Não havia o tropel de passos na rua, ou o barulho do vento. Ele ouvia apenas o leve ressonar de uma pessoa ao seu lado e uma sensação agradável no peito. Abriu os olhos devagar e fitou o teto pintado de branco, o sol batia na cama e aquecia seu tórax. Seu primeiro dia como humano, como um mortal, era um lindo dia de sol.
_Nossa! – encantado, ele olhava para sua própria mão, como se nunca a tivesse visto antes. Então ele olhou para o lado, para o rosto adormecido de Sara. Tão linda e serena como sempre... Por um momento ele ficou observando-a, mas não pode resistir a dar-lhe um beijo.
Ela acordou sentindo um hálito quente em seu rosto e lábios fogosos pressionando os seus. Piscou várias vezes e sorriu para ele.
_Bom dia, meu amor!
_Como se sente?
_Perfeito. Foi mais fácil do eu imaginei!
_Você é que pensa! – ela resmungou, mas tratou de beijá-lo, afundando com ele no colchão macio.
Estavam em meio a um beijo delicioso e faminto quando um ronco ecoou pelo quarto e Sara começou a rir.
_Acho melhor comermos alguma coisa...
_Comer... O que é isso mesmo?
_Venha! Acho que estou sentindo o cheiro de lingüiças e ovos mexidos...
Então ela se levantou, vestiu um penhoar sobre a camisola e o puxou pela mão.
Na cozinha, Abbott e seu sobrinho tomavam seu café da manhã. Na outra extremidade da mesa, Ceri bebericava uma xícara de chá verde, uma perna esguia dobrada e apoiada no assento da cadeira, da qual Trevor não conseguia tirar os olhos.
_Muito bom dia a todos!
Os criados levantaram-se imediatamente, alisando os paletós. Mas ao se darem conta de quem acompanhava a bela feiticeira, seus queixos imediatamente despencaram.
_Abençoada seja Danan! Ceridwen se levantou, espirrando chá pela mesa e correu abraçar seu padrasto. – Elryk!
_Bom dia Ceri. – os olhos de mãe e filha se encheram de lágrimas.
_Bom dia.
_Meu senhor Elryk! – Abbott aproximou-se e estendeu a mão para cumprimentá-lo. – Seja bem vindo à luz do sol!
_Obrigado, Abbott! Me disseram que haveria ovos mexidos aqui...
Sorrindo orgulhoso, Abbott destampou uma terrina de prata recheada de ovos e salsichas fumegantes.
_Que cheiro delicioso! Mal posso esperar!
A primeira garfada foi estranha e a textura da comida fez cócegas em suas papilas. Os sabores invadiram seus sentidos e ele podia jurar que distinguia cada nuance do tempero. O sal, a pimenta, o rico azeite italiano.
_E então?... – Sara quis saber.
_É como o primeiro gole de sangue quando se está sedento... Não. Na verdade é melhor!
Abbott sorriu satisfeito e Ceri suspirou aliviada.

Após o desjejum, Elryk insistiu em um passeio pela cidade. Sua primeira impressão foi de total estranhamento. Tantos anos, tantos séculos acostumado ao frio da noite, a sua escuridão... Era realmente muito estranho ver toda aquela luz que resplandecia do sol.
Eu havia me esquecido o quanto o sol brilhava e quão intensa era a sua luz; e como... Como ele é quente! – Ele abriu o colete e os botões mais altos da camisa, próximos ao pescoço.
_Elryk, meu amor, o que está fazendo?
_Está muito quente!
_Eu sei. Mas não estamos na mansão. Ajeite a roupa.
_Está quente, Sara! Muito quente!
_Sim querido. Depois de tantos anos acostumado ao frio da noite era de se esperar esta reação de você. Mas recomponha-se por favor.
_Oh! Está bem.
Caminhavam pelas ruas de Glasgow de braços dados. Os transeuntes passavam por eles e Elryk não sentia absolutamente nada. Ele procurava sentir alguma coisa, mas não conseguia.
_O que houve Elryk?
_Não sinto mais nada! Não escuto mais o coração das pessoas batendo, nem seu cheiro... É tão estranho! Quando me tornei um andarilho, quase enlouqueci com a quantidade de odores que sentia, com o barulho. Mas agora eu não sinto mais nada!
_Bom, esta é sua nova condição. Você é humano agora. E os humanos não podem sentir nada disso.
_Acho que vai ser difícil eu me acostumar a esta nova condição.
_Com certeza, meu amor. Mas eu estarei sempre aqui para ajudá-lo.
_Minha bruxinha, minha Talley! – ele a abraçou forte e cheirou seus cabelos sedosos. –Ficaremos juntos, envelheceremos juntos, e seremos muito felizes até o último dia de nossas vidas.
_Você não se arrepende, então?
_ Jamais me arrependerei dessa decisão!
_Oh, meu querido, meu amado viking! É tão bom ouvi-lo dizer coisas assim! – Ela acariciava sua face com seus dedos esguios. – Seremos muito felizes! Para sempre, o nosso sempre. – Em plena praça, sob o sol, eles se beijaram com a paixão e lascívia bem característica de ambos.
_As pessoas estão olhando... – ela murmurou de encontro aos lábios dele.
_Isso será um inconveniente... – Elryk então se afastou e pegou ambas as mãos dela nas suas. – Sabe o que quero fazer agora?
_O que? – ela rebateu, com malícia e antecipação transbordando em seu olhar.
_Comer um assado de carneiro!

Lynn observou Sara e Ceridwen reverenciarem sua deusa na sacada de seu quarto. Para ela, a lua minguante era como um sorriso cínico no céu noturno, zombando da dor que esmagava o coração da jovem vampira.
_Tem certeza de que é isso o que você quer fazer, Lynn? – Ceri virou-se para ela, empurrando a massa de cabelos castanhos para trás. Embora seu comportamento fosse descontraído, em seus olhos via-se preocupação.
_Sim. É a coisa certa a fazer.
_Mas Edwart ficará muito zangado com você!
_Sei disso... Mas não há outro jeito! Essa briga é minha e ele não entende isso. Tenho de lidar com Judie, sozinha.
_Muito bem então. Nós a apoiamos em sua decisão e a ajudaremos, certo Ceri?
_Sim mamãe. É claro!
Naquele momento, Edwart entrou no quarto. Seu semblante estava preocupado. Viera se despedir de Rhoslyn antes de sair para o confronto com Judie e apanhar o frasco de poção com Sara.
Lynn apertou os dedos em volta do objeto que tanto odiava estar segurando e virou-se para o marido. Se fosse possível, seu rosto estaria banhado em lágrimas naquele momento. Edwart notou seu olhar torturado e apressou-se a abraçá-la.
_Vai ficar tudo bem, minha rosa! Eu prometo que estarei com você antes de o sol nascer e então, tudo terá acabado...
_Sim. Eu sei disso. – Seu coração estava apertado e ela sabia que se demorasse mais, seu plano cairia por terra. Respirou fundo e olhou-o nos olhos. – Oh Edwart! Eu o amo tanto! Me perdoe, por favor!
_Perdoar? Mas o que... – antes que pudesse perguntar o que se passava a dor o invadiu de repente e seus olhos se arregalaram, encarando a mulher em seus braços, que soluçava convulsivamente, cobrindo o rosto com as mãos sujas de sangue. – Lynn... – balbuciou.
_Me perdoe, me perdoe, me perdoe! – ela não parava de repetir enquanto, lentamente o deitava na cama. O cabo da pequena adaga despontado de suas roupas ensangüentadas. Lynn soluçava com os olhos marejados cobrindo a boca e o nariz com as mãos.
A expressão nos belos olhos azuis de Edwart era de descrédito, misturada com dor e preocupação.
_Não... – foi só o que ele conseguiu dizer. – O que... – Edwart sussurrou ao perceber a presença das feiticeiras.
Lynn fechou os olhos com força, beijou-o nos lábio e então se levantou.
_Cuidem dele, por favor!
_Nós cuidaremos, não se preocupem.
Sem olhar para trás, Rhoslyn se foi, apertando firmemente o frasco de poção em seu bolso. Estava a ponto de abrir a porta da rua quando lembrou-se de Dougray.
_Não posso deixá-lo lá! – murmurou aflita. – Ele não queria essa vida!
Como uma brisa gelada, ela percorreu os corredores e desceu até a masmorra escondida.
_O quanto você se arrepende do que fez, Dougray?
_Se eu pudesse voltar ao passado, jamais teria obedecido minha irmã nas atrocidades que ela me mandava fazer! Tem de acreditar em mim, milady. Jamais quis ser esse monstro!
_Eu acredito em você. O que faria, se eu lhe desse uma nova vida?
_Outra vez essa pergunta...!
_Não temos muito tempo. Responda-me, Dougray.
Ele suspirou e deu de ombros, encarando-a por um longo tempo.
_Faria de tudo para merecer essa dádiva!
_Que seja então. – Sem mais, ela levou um dedo a boca, e mordeu-o. O sangue que começou a gotejar caia dentro do pequeno frasco de vidro. Uma, duas, três. Quatro gotas de sangue mancharam de vermelho a infusão leitosa. – Estou lhe dando uma prova de minha confiança em sua alma, Dougray Senka. Estas barras não foram abençoadas e nem lhe fariam mal, se o fossem.
Ele apenas a observou, enquanto as gotas de sangue se dissolviam e desapareciam no frasco que ela agitava gentilmente.
_Beba isso agora e amanhã estará curado de sua maldição. Saia ao amanhecer e ninguém o verá. Aqui está a chave da cela. Lynn depositou uma grande chave enferrujada no chão, bem próximo à grade e se afastou dois passos.
_O que é isso? – ele olhou com receio para o frasco.
_Uma poção. Vai curá-lo do vampirismo, como eu disse.
_E como eu vou saber que você não está tentando me envenenar para depois me matar? – Lynn não disse nada, apenas o olhou. – Por que está fazendo isso? – seus olhos escuros revelaram um pequeno brilho.
_Porque você se arrependeu.
_ Não acha que está sendo ingênua em acreditar em um vampiro que fez tanto mal ao homem que ama? E se eu estiver mentindo para você?
_Você está? – a troca de olhares foi mais significativa do que qualquer coisa que o vampiro pudesse ter dito.
_ Seja feliz, Dougray. – então ela se virou e saiu.
_Rhoslyn! O que você ainda está fazendo aqui?! – Ceridwen subia para o segundo andar e estacou, com um pé em cada degrau, ao ver Lynn surgir de um corredor.
_Tive de resolver um problema...
_Pois ande logo! Edwart está furioso e estou vendo o momento em que arrancará aquela adaga com as próprias mãos!
_Estou indo. Tente ganhar uma hora para mim, por favor. Para que eu possa chegar ao castelo.
_Vamos tentar.
_Diga-lhe que eu o amo...
_Eu direi. Agora vá!

A noite estava bonita e a lua minguante continuava sorrindo sinistramente em seu reino azul. Lynn não olhava para os lados nem para cima enquanto corria. Uma hora depois, chegou ao antigo castelo em Greenock.
O enorme prédio estava exatamente como ela o vira pela última vez. Sujo e deteriorado.
Ela caminhou até a porta principal, olhando em volta. Estava prestes a gritar por Judie quando seus instintos a avisaram de que algo a espreitava. Num átimo, ela girou nos calcanhares e abaixou-se quase até o chão, suas saias verdes, quase negras formando um círculo bufante ao seu redor.
_Relaxe, milady. – Judie resmungou, encostada na parede de pedra fria, fingindo interesse em suas unhas. – Fez boa viajem?
Lynn não se mexeu, um rosnado se formou em seu peito, a boca entreaberta deixava a mostra suas presas.
_Ora! Mas quanta agressividade... Não há razão para isso. Posso lhe oferecer algo? Vinho? Uísque? Champanhe? – seu tom era arrogante e cínico.
_Poupe-me dessa tortura! Preferia ouvir o canto de um corvo à sua voz! – Judie a encarou bufando. – Não tenho tempo a perder. Eu estou aqui, não era isso o que você queria?
_Na verdade, eu queria matá-la aos poucos, na frente de Edwart, mas acho que terei de me contentar com uma coisa mais particular. O que é uma pena, pois você não o verá arder em meus braços! – disse, sua voz era languida como se imaginasse o prazer que sentiria ao fazer aquilo.
Nem bem acabara de dizer aquelas palavras, Judie saltou sobre Lynn, que se esquivou.
_Você é rápida! Vou gostar de brincar com você.
O instinto de caça crescia dentro dela e Judie, sem perceber o perigo, continuava provocando-a displicentemente.
_É bom começar a correr agora, Judith. E que Deus a proteja se eu puser minhas mãos em você!
_Uh! Fiquei com medo agora!
_Desista e deixe-nos em paz. – ambas em posição defensiva, elas se rodeavam, como dois lutarores em busca de uma brecha no adversário. – Não quero me atracar com você como um animal selvagem...
_Já ouviu falar naquele ditado “Quando um não quer dois não brigam”? – Ela não esperou que Lynn respondesse – Bem, este um aqui está morrendo para entrar numa briga.
Lynn revirou os olhos e bufou, mal tendo tempo de desviar do próximo ataque.
_Sendo assim... – ela resmungou, saltando para cima da outra.
Em meio ao farfalhar de tecidos e rosnados de fúria as duas oponentes rolaram pelo chão empoeirado, presas a mostra, unhas a postos. Nenhuma das duas desistiria antes da outra.
Num dado momento, após se livrar de um golpe certeiro de Judie, Lynn abaixou-se próximo a uma parede, arfando como uma leoa que encontrar em sua caça um formidável oponente. Seus olhos castanhos jamais deixavam a inimiga, ignorando o sangue que corria de seus ferimentos e manchava os farrapos do vestido verde que usava. Judie também parecia cansada, mas ainda ostentava nos lábios fartos um sorriso presunçoso, pois suas vestes estavam praticamente intactas.
Então, sem aviso, Rhoslyn saltou para cima de sua rival, fazendo com que ela batesse a cabeça no chão.
Sangue começou a escorrer da ferida, mas Judie não se abalou, com um movimento repentino, cravou os dentes no pescoço de Lynn, que gritou e pulou para trás, permanecendo agachada e com a mão sobre o ferimento. Um sorriso maligno aflorou nos lábios ensangüentados de Judie. Levantou-se e caminhou até onde sua oponente estava prostrada.
Com o canto dos olhos, Lynn acompanhava seus movimentos, o cabelo farto que caia ao redor do rosto, escondendo um esgar de satisfação.
_Você foi muito presunçosa em vir até aqui sozinha, sabe? Tendo tão pouca experiência... É corajoso, de fato, mas um tanto idiota. Eu jamais teria feito isso.
_Você não é mais experiente do que eu! E eu tenho uma vantagem sobre você... – Lynn ergueu a cabeça para encará-la. A ferida em seu pescoço não mais sangrava. – Tive um exímio professor!
_Eu também aprendi muito. A noite é uma ótima mestra!
_Mas você não caça javalis selvagens, não é?
_O que...
E num minuto, tudo estava acabado.
Judie estava prostrada no chão com uma enorme laceração no pescoço que quase o separava da cabeça.
Lynn ficou a observar o cadáver desmanchando-se e rezou pela alma de Judie Abbott e pela de seu pai.
_Sinto muito que tenha acontecido desse jeito...
_Eu também. – ela ouviu a voz tão querida perto de si logo depois que uma brisa gelada tocou seu rosto e fez sua saia tremular. Instintivamente ela deu as costas para o castelo e engoliu em seco.
_Você é a mulher mais teimosa que eu jamais conheci! – Edwart disse, com voz severa.
_Perdoe-me, meu amor. Mas essa batalha era minha e de mais ninguém.
_Minha rosa... você e eu somos um só. Você não deveria ter vindo aqui sozinha. – Se pudesse, Lynn teria corado de vergonha. – Mas de fato, você foi muito esperta. Eu não esperava que enfiasse uma adaga em meu peito...
_Ah, meu querido! Perdoe-me! Foi a única maneira que encontrei de detê-lo por algumas horas.
_Você foi uma menina muito levada e inconseqüente. – ele disse, tocando-lhe o nariz com o dedo.
_ Eu sei. Você me perdoa? – o abraço em que ele a envolveu valeu mais que qualquer afirmativa.
_Agora... Quanto a poção...
Pelo brilho nos olhos dele, Rhoslyn soube que seu marido descobrira tudo.
_Por que diabos você a deu a Dougray?
_Eu descobri a masmorra. Ele estava arrependido! Lilith o transformou contra sua vontade... – justificou-se.
_Rhoslyn Blake McDonovan... O que eu vou fazer com esse seu coração mole?!
_Você não o matou, não é?
_Claro que não! Ele está indefeso agora, seria injusto.
_Agora ele terá a oportunidade de fazer de sua vida o que bem entender. Muitos não têm essa chance. Tenho certeza de que Dougray fará bom uso de sua nova oportunidade.

Na parte oeste da cidade, Dougray entrou no cemitério ao raiar do dia. Era a primeira vez que se atrevia a sair ao sol.
A sensação de calor em sua pele pegou-o desprevenido, mas sua felicidade era tanta que uma sonora gargalhada escapou de seus lábios. Riu tanto, que teve de se sentar na grama fofa para recuperar o fôlego. O cheiro de capim inundou suas narinas e fez rir novamente. Todos os dias agradecia à Rhoslyn Blake pelo presente tão generoso que lhe dera.
Encarou o céu azul por alguns segundos e então se levantou. Percorrera o cemitério como um gatuno por várias noites, procurando-os, lembrando-se de seus pais, de sua infância feliz, até que finalmente encontrara o jazigo que buscava. Leu os nomes dos pais inscritos na pedra. Pela primeira vez em séculos, os olhos de Dougray encheram-se de lágrimas.
Sentido, o ex-vampiro lançou sobre a sepultura uma rosa negra e se foi. A barcaça que o levaria para a Irlanda sairia naquela noite. Uma nova vida, servindo a Deusa que o curara, o aguardava na Ilha Esmeralda.

Cap26

A noite estava bonita e havia várias pessoas na porta do teatro e em seu luxuoso saguão. Desconhecidos e amigos os cumprimentaram na entrada, mas logo o casal se misturou à pequena multidão.
_Olhe em volta, sinta o cheiro. – ele dizia baixinho em seu ouvido. A pele de Rhoslyn se arrepiou com o contato do hálito frio dele em seu pescoço, provocando sensações que a distraíram de seu objetivo ali. – Lynn? Vê algo que lhe apeteça?
_Aquele rapaz de cabelos negros. – ela respondeu após um momento. – Me lembra você...
Edwart pensou um pouco e depois sorriu. Pegou Lynn pelo cotovelo e conduziu-a gentilmente até sua presa.
Maravilhada, Lynn observou enquanto seu marido convencia o belo rapaz, que nunca haviam visto antes, a acompanhá-los até os corredores ainda desertos do teatro.
O rapaz por sua vez, parecia em transe enquanto seguia o casal.
_Muito bem, meu amigo. – Edwart disse, fazendo com que ele se encostasse na parede, entre ele e Rhoslyn. – Cumprimente minha esposa, agora.
O rapaz então, levantou a mão para pegar a de Lynn e beijá-la, um sorriso deslumbrado no rosto jovem.
_É um grande prazer conhecer tão bela mulher, milady. – levou os dedos dela aos lábios sem nunca desviar os olhos.
_O prazer é todo meu, querido.
_Agora, meu bem, – Edwart voltou a falar bem perto de sua orelha – Sem romper o contato visual, retire a luva dele e delicadamente morda a veia que pulsa na base de sua mão.
_O pescoço não?
_Não. É muito público. O pulso também é mais fácil para a primeira vez.
_Está bem. Lynn respirou fundo, embora não precisasse de ar, era um hábito humano útil e difícil de abandonar e lhe trazia calma também.
_Ele não vai despertar com a dor?
_Não. A menos que eu permita. Quando você tiver de fazer isso sozinha, mantenha o seus olhos nos dele, pois é isso que os prende ao transe.
Ela engoliu em seco e olhou rapidamente para a mão do rapaz, ainda nas suas e depois voltou os olhos para seu rosto. Ele ainda a encarava, fascinado por sua beleza.
A veia pulsava no pulso de pele branca, convidativa e quente. De repente, ela sentiu a sede dominar-la e não mais se conteve. Logo, o sangue cálido e saboroso corria sua garganta, preenchendo e estimulando cada centímetro de seu corpo, com uma força que ela jamais sentira antes.
Lynn sabia que precisava parar, o coração do rapaz começava a falhar, ele iria morrer se ela continuasse, mas era tão difícil parar! A voz de Edwart a alcançou, longínqua e indistinta e então, uma mão forte em seu pescoço a forçou a se afastar do glorioso sangue.
_Rhoslyn! – comandou – Acorde!
Ela piscou e balançou a cabeça de um lado para o outro, soltando algumas mechas de seu penteado.
_Você está bem?
_Sim. Um pouco confusa... O que houve?
_Nada de mais. É sempre um desafio parar quando se prova o sangue humano pela primeira vez.
_Ele vai ficar bem? – ela olhou para o jovem nobre, agora sentado no chão, a cabeça pendendo sobre o peito.
_Vai sim. Ele se sentirá um pouco fraco nos próximos dias, mas viverá.
_Não suportaria saber que o matei... – Lynn torceu as mãos e agachou-se de frente para o rapaz, tocando sua testa e seu peito com a mão tremula.
_Tem a minha palavra de que ele ficará bem, minha rosa. Agora vamos. O espetáculo já vai começar. Eu a levarei até nosso camarote e depois voltarei à galeria para caçar meu jantar.
_Odeio quando você fala das pessoas dessa forma! Como se elas fossem veados e porcos a serem abatidos... – ela ficou em silencio por um momento, apreciando a sensação de poder que o sangue do rapaz lhe dera. – Mas entendo por que a maioria prefere o sangue humano. Jamais me senti assim em toda a minha vida.
Sozinha no camarote, Lynn olhava em volta e para a galeria lá em baixo. Viu seu marido abordando uma jovem loura muito bonita, mas vestida de forma simples, e desaparecer com ela pelas portas duplas. O ciúme a tomou de assalto.
_Bem... Ela disse em voz baixa. Eu estava com outro homem até agora a pouco...
_Outro homem, meu bem? – A voz de lady Eglantine Devlin soou espantada atrás dela.
_Oh lady Devlin! Que prazer em vê-la!
_Igualmente, filha, igualmente. Mas você pode fazer o favor de me explicar essa declara que a ouvi fazendo?
A velha aristocrata parecia mesmo preocupada e Lynn teve de pensar rápido.
_Eu estava observando a galeria, ainda a pouco, e vi meu marido conversando com um homem e sua filha, que era muitíssimo bela e fiquei com ciúmes, mas então me lembrei de que ainda a pouco, um homem abordou-me no corredor quando Edwart me deixou sozinha por um instante e estava pensando que não tenho o direito de ficar com ciúmes dele nessa situação.
_Entendi. Acho uma graça o relacionamento devotado de vocês, minha querida, de verdade!
_Obrigada, lady Devlin. Nós nos amamos muito!
_Eglantine! Aí está você!
_Oh! Olá querido. Você me encontrou!
_Não. Foi o jovem Edwart aqui.
_Ele sempre encontra. Comentou a senhora de idade, rindo. – ajude-me a levantar, querido, e deixarei você a sós com sua linda esposa.
_Tenham uma boa noite, milady. Milorde.

Na mansão, Elryk e Sara se recolheram cedo e entregaram-se ao amor que sentiam um pelo outro. As mãos ávidas de Elryk percorriam seu dorso enquanto Sara cravava suas unhas na nuca do vampiro loiro.
_Elryk – Sara chamou num murmúrio, envolta nos lençóis após amar seu viking.
_Sim, minha bruxinha?
_Eu quero lhe pedir algo.
_O que você quiser – sussurrou, sua boca bem próxima da orelha delicada arrepiando a bela feiticeira.
_Eu quero que você me morda.
_Mordê-la? Sara...
_Morda-me! Eu quero ser a última pessoa a sentir suas presas. A última pessoa cujo sangue você beberá.
_Mas Sara... E a Deusa? Você se purificou.
_Eu sei de tudo isso Elryk. Não há problema. Tenho certeza que Danan entende meu desejo.
_Tem certeza, minha querida?
_Tenho. – Elryk olhou-a por alguns segundos e então afastou seus cabelos com a mão e deixou suas presas penetrarem a pele macia. – Oh! – ela soltou um gemido mesclado de dor e prazer.
_Havia me esquecido de como seu sangue é quente!
_Eu sou quente, meu amor. – Ela mordiscou o lábio de seu deus nórdico e ele beijou-a com volúpia. Sara afundou suas mãos delicadas naquelas costas largas e cravou suas unhas nelas, fazendo Elryk gemer.

O dia em que a poção finalmente ficaria pronta amanheceu, esquentou-se sob o sol do meio-dia e então finalmente a noite chegou, despertando os vampiros.
Nos aposentos do casal McDonovan, Lynn não abriu os olhos de imediato, apenas deixou-se ficar na cama, com os braços de Edwart ao redor de sua cintura. Seria tão difícil! Tão doloroso!
_Mas eu vou conseguir!
_Disse alguma coisa, minha rosa?
_Não. Mas estou com sede. Preciso ir caçar.
_Você não vai sair de casa hoje, Lynn.
_Pro inferno que não vou! – ela começou, deixando a frustração tomar conta de sua mente por alguns momentos. Depois, suspirou e sentou-se na cama, acariciando o rosto do marido. _Não vou discutir com você hoje... Mas eu preciso me alimentar, meu bem e você também. Prometo que não farei nada que o desagrade enquanto estive fora, além do mais, a poção levará ainda algumas horas para ficar pronta.
_Está bem. Você quer que eu vá com você?
_Eu vou adorar meu amor.
Ela deleitou-se com o sangue de um humano novamente. Gostara da força que isso lhe dera na noite anterior e sabia que esta força lhe seria útil.
Ao voltarem para casa, Edwart seguiu direto para o jardim, onde a fogueira havia sido acesa. Lynn, por sua vez, começou a vagar pela casa. Sem perceber, ela deparou-se com uma porta que jamais vira antes, nos fundos da mansão. Lá de dentro ela ouviu um gemido furioso.
Abriu a porta e desceu os degraus de pedra limosa até o subsolo. Não era como a biblioteca secreta, onde o chão era de madeira, ali, o piso era de terra batida, coberta de pedregulhos e limo. Não havia luz, mas com seus olhos especiais ela enxergava perfeitamente. Nos fundos do cômodo, havia uma cela e nessa cela, uma figura prostrada resmungava alto... Dougray Senka!
_Oh meu Deus! – o vampiro loiro levantou a cabeça ao ouvi-la e colocou-se de pé mais do que depressa.
_Boa noite milady! – ele disse, sua voz soando cansada.
_Desde quando você está aqui, Dougray?
_Como se você não soubesse...
_Mas eu não sei!
_Seu querido marido me trancou aqui no dia do seu casamento e nunca mais voltou. – Ele franziu o cenho, irritadiço.
_Não acredito que Edwart foi capaz de tamanha crueldade!
_Pois ele foi. Não que tenha sido injusto, afinal, eu lhe fiz mal primeiro.
_Não interessa. O que você comeu esses dias todos?
Dougray deu de ombros. Seu semblante estava bastante abatido.
_Você não se alimenta desde aquele dia? – como ele nada dissesse, Lynn mudou de assunto. – Por que não fugiu? Essas barras não poderiam contê-lo.
_São abençoadas. Não posso tocar nelas.
Lynn ficou em silêncio por algum tempo. Na certa Edwart mentira para manter o outro vampiro aprisionado, mas por que Dougray não tentara escapar mesmo assim?
_Mas isso não o mataria... Você poderia escapar.
_Sinceramente, bela dama, estou muito cansado disso tudo. Nunca quis ser essa maldita criatura em que minha irmã me transformou.
_Você não pediu que Lilith o transformasse? – Lynn perguntou, incrédula.
_Não. Ela simplesmente matou nossos pais e me mordeu. Odiei-a por isso, por muito tempo.
_Mas então, por que ficou com ela?
_Porque era meu dever, eu era o mais velho. E porque jamais fui capaz de viver sozinho.
_Me diga, Dougray... Se você pudesse se livrar da maldição, você o faria?
_Que pergunta estranha! Não há como fazer tal coisa.
Ambos ficaram em silêncio por um instante até que ouviram a voz de Edwart chamando por Lynn.
_Tenho de ir agora, Dougray.
_Só não me esqueça aqui, está bem?
Ela girou nos calcanhares e o encarou. Os olhos escuros eram tristes e comoveram o coração de Rhoslyn.
_Não esquecerei.
Usando toda sua velocidade, ela saiu da masmorra e foi encontrar-se com o marido no hall de entrada.
_Estou aqui, meu bem.
_Onde foi? Eu estava à sua procura.
_ Eu estava na biblioteca – pensou rápido. Não gostava de mentiras, mas fora necessário.
_A poção já está pronta. Vou ao nosso quarto mudar de roupa, por favor, fique com Sara.
_Está bem.
Assim que ele desapareceu de vista, Lynn correu para o jardim, para a fogueira que cozinhava a Poção de Purificação.
_Sara! – a feiticeira se virou sorrindo, mas deixou o sorriso morrer ao ver a expressão nos olhos de sua amiga. – Preciso que me ajude. Rapidamente, Lynn contou a ela seu plano ousado e doloroso.
_Não sei, querida... Tem certeza de que é isso o que quer fazer?
_Absoluta, Sara. Vai me ajudar?
_Ora... É claro. Ceridwen também ajudará, tenho certeza.
_Obrigada! – Rhoslyn a abraçou. – Mais uma coisa... Sabe se há poção suficiente para uma terceira dose?
_Havia... Mas Lecabel separou as duas doses de que precisaremos e levou o resto para longe. Para que o segredo permaneça guardado.
_Maldição!
_Que foi meu bem?
_Nada. Não é nada. Dê-me o frasco, Sara e venha comigo até o quarto...
Novamente no hall, as três mulheres encontraram Edwart e os cavaleiros. Receosa, Sara entregou um frasco da poção leitosa para Elryk.
_Não tenha medo, meu bem. Vai dar tudo certo.
_Ele sentirá dor, Khamael? – Ceridwen quis saber.
_Não saberia dizer, criança. Nunca vi essa poção em funcionamento.
_Bom, eu não tenho medo da dor. Já convivi o suficiente com ela para saber que sempre passa. – ao dizer isso, Elryk tirou a pequena rolha do frasco de vidro e o virou na boca, até que todo o líquido escoasse. – Isso tem um gosto horrível! – reclamou, limpando a boca com um lenço de seda.
_Como se sente, meu amor?
_Normal.
_Isso é um feitiço, não um milagre, andarilho. Vá se deitar e deixe a infusão fazer efeito. Talley, fique com ele a noite toda, ele pode precisar de ajuda.
_Está bem. Desejo boa noite a todos.
O casal se retirou, observado pelos demais. Ceri abraçou-se a Lucian e repousou a cabeça em seu peito.
_Ele ficará mesmo bem?
_Sim. Não tenha dúvida disso. O máximo que pode acontecer é a poção ao invés de surtir efeito, deixá-lo com uma enorme dor de barriga, mas sendo ele um vampiro, não creio que sentirá coisa alguma.
_Como você pode brincar com algo assim?!
_Desculpe minha cara. Estou tão nervoso quanto você, acredite.
Por sua vez, Edwart e Lynn, de mãos dadas no pé da escada estavam imersos em suas próprias expectativas.
_Teremos de esperar quanto tempo até saber se a poção funciona ancião Khamael?
_Amanhã pela manhã já terá sua resposta, meu caro anfitrião. Até lá, descanse e procure não se preocupar.
_Amanhã?! Quer dizer que não poderemos fazer nada, nem essa noite?
_Temo que não, minha cara.
Frustrada, Rhoslyn bufou e subiu a escada batendo os pés.
_Me desculpe por isso, senhor Khamael. Minha esposa se sente muito incomodada com essa situação. Ela pensa ser culpa dela a revolta de Judith Abbott.
_Sei disso. Não se preocupe. Vá confortar sua esposa, jovem. Meus velhos ossos clamam por um descanso. Boa noite e que Danan os proteja.
_O senhor também.
No terceiro andar, Elryk acomodara-se entre s lençóis da cama de casal, com Sara ao seu lado.
_Sente-se bem, meu amor?
_Sim. Apenas um gosto ruim na boca... – alguns segundos se passaram e ele fez uma careta. – Que estranho...
_Que foi? Dói alguma coisa?
_Não exatamente. Uma sensação engraçada no estômago...
_Engraçada?
_É. Acho que é... Calor! – ele arregalou os olhos de surpresa. Mais por se lembrar da sensação do que pela sensação em si. Depois, desatou a rir.
Mas então, sua risada foi substituída por um grunhido agudo de dor.
_Elryk? O que foi? Elryk! – Aflita, Sara ajoelhou no colchão e começou a desabotoar a camisa branca que ele ainda usava, na tentativa de fazê-lo respirar melhor. O peito forte subia e descia com dificuldade e de forma inconstante. – Oh Grande Deusa! Proteja meu amor...Elryk gemeu e se contorceu na cama a noite toda. Era quase manhã quando seu corpo se aquietou e sua respiração voltou ao normal e só então, Sara permitiu-se relaxa e dormir.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Cap25

_Me perdoe por ter sido rude, minha rosa. – Edwart disse, quando Lynn finalmente entrou no quarto, minutos antes do romper da aurora.
_Me perdoe por ser intolerante, meu amor. – ela retrucou, caindo nos braços dele. O peso de seu plano esmagava seu coração, mas ela sabia que era necessário. Não permitiria que ele se machucasse novamente por causa dela, não agora que era capaz de se defender.
Eles se beijaram e deitaram lado a lado na cama. Logo antes de o sol nascer, Lynn deitou a cabeça no peito dele e o abraçou, desejando que aquele gesto pudesse transmitir toda a imensidão de seu amor.

A lista de ingredientes era enorme e complicada. Cheia de enigmas.
_As ervas não serão problema. – comentou Sara, lendo pela terceira vez a lista que Elryk e Telêmaco haviam escrito no decorrer da noite anterior. – Mas elas são apenas uma pequena parte da poção...
_Acho que não será tão difícil, mãe. Uma pena branca não deve ser tão complicado de encontrar...
_Não, não. – Lynn olhava a lista por cima do ombro de Sara. – A pena não necessariamente será branca. Aqui diz a primeira pena de um pássaro branco, mas o filhote de um pássaro branco geralmente tem penas cinzentas.
_Tem razão, Lynn. – Ceridwen concordou. – E aí entramos em outro impasse... Qual pássaro?
_Acho que uma coruja das neves, ou um pombo. – Sara murmurou, mais para si mesma.
_Se perguntarmos à Khamael, acha que ele responderá, mãe?
_Dificilmente. Talvez nem ele mesmo saiba. Khamael não é tão velho assim. Talvez Lecabel, mas não podemos ter certeza.
_Eu apostaria na coruja. – Disse Elryk. – É mais raro e nobre.
_Tem razão, querido. Elas estão em época de acasalamento?
_Estão sim. Por sorte.
_Como é que você pode ter tanta certeza, Telêmaco? – Ceridwen quis saber.
_Bem, minha cara, estamos na primavera... Além disso, não se pode viver algumas centenas de anos sem se aprender alguma coisa.
_Algumas centenas? – ela brincou.
_Está bem. Várias, muitas centenas de anos.
_Nosso amigo grego herdou de seu povo o gosto pelo conhecimento, meu bem. – explicou Lucian. – Ele é um estudioso da vida selvagem e das plantas. Um biólogo de mão cheia.
_É sério?
_Sim. Não fique tão impressionada, Ceri. Tive muito tempo pra estudar. Qualquer um faria a mesma coisa se tivesse a minha idade.
_Certo. Você não gosta muito de elogios, não é?!
_Não muito... Vou buscar meus livros.
Ceridwen ficou olhando enquanto Telêmaco saía da biblioteca com uma lufada de vento frio e depois encarou Lucian.
_Eu disse alguma coisa errada?
_Não, minha querida. – o vampiro passou um braço ao redor da cintura delgada e a trouxe para mais perto. – Telêmaco é muito discreto no tocante as suas habilidades. Ele é o mais forte de todos nós, sabe?!
_Espere um momento! – Sara, que estivera calada até aquele momento, levantou-se e encarou Lucian, com fogo nos olhos. – Que história é essa de meu bem? E que mão é essa na cintura da minha filha?!
Imediatamente, Lucian tirou o braço e deu um passo para o lado.
_Mamãe, por favor!
_Você devia ter falado comigo antes, Ceridwen!
_ Eu já sou maior de idade, há muito tempo, aliás!
_Sara querida, por favor, não se zangue com Ceri... Eu tenho a maior culpa nisso.
_Você fique calado, seu vampiro falastrão. E saia da minha frente.
Com um suspiro resignado, Lucian deu um beijo na testa de Ceridwen e saiu da biblioteca.
_Oh mamãe! Por que a senhora fez isso?
_Vocês já dormiram juntos? – Sara quis saber. De olhos fechados, ela apertava as mãos ao lado do corpo.
_Mãe! Isso é coisa que se pergunte? – Ceri rebateu, mas ao ver a expressão contraída no rosto da mãe, apressou-se em responder. – Não, mamãe. Nós não fizemos sexo. Ainda.
_Ceridwen!
_O que foi?! Você perguntou. – Ceri cruzou os braços na altura do peito e olhou feio para a mãe.
_Você tem razão. Desculpe-me... Mas eu não consigo entender! Ontem mesmo você odiava Elryk apenas por ele ser um vampiro e hoje já está de caso com um deles!
_Não estou de caso com Lucian, mãe! Apenas nos beijamos algumas vezes. E por Danan! Que beijos!
_Poupe-me dos detalhes, Ceridwen.
_Desculpe. Mas o caso é que você não tem com o que se preocupar, mãezinha. Eu sou, queira você admitir ou não, uma mulher adulta e sei o que estou fazendo.
_Mas ele é tão velho para você, meu amor.
_Mamãe! Eu também não sou tão nova assim, lembra?
_Está bem! Desculpe-me.
_Eu conheço seu gênio, mas peça desculpas ao pobre Lucian.
_Pobre Lucian? – Sara levantou uma sobrancelha ao que a filha deu de ombros.
_Vou procurar por ele e dizer que você sente muito... E eu não odiava Elryk.
_Sara! Por que fez isso com a menina?
_Ah Lynn... Não sei. Nunca vi Ceri com nenhum homem antes, embora saiba que ela já... – Sara parou de falar, engoliu em seco e pigarreou – os conheceu. Eu sei que ela é uma mulher adulta, mas... Fiquei com ciúmes.
Lynn riu, mas logo se conteve. Com certeza não era fácil para ela ver sua filha tão obviamente crescida.

_Mamãe disse que sente muito. – Ceridwen abraçou Lucian, que a esperava no topo da escadaria, pelo pescoço e o beijou de leve.
_Eu ouvi. O que você quis dizer com aquele ainda?
_Se você não sabe, meu caro Lucian, talvez seja realmente velho demais para mim.
_Velho?! Eu não sou velho! Sou milenar, sua bruxinha impertinente! E vou lhe mostrar o que isso quer dizer! – sem aviso, ele a pegou pela cintura e jogou sobre um ombro, começando a correr pelo corredor, até o quarto que ocupava nos fundos da casa.
_Me solte! – Ceridwen esmurrava suas costas e esperneava. Ela queria ser solta, não é? Então Lucian jogou-a sobre a cama de casal. – O que vai fazer?
_ Você não sabe? Então realmente você é muito nova pra mim.
_ Eu não sou nova! Sou maior de idade! – ela bradava. Lucian segurou seus punhos e pressionou-os contra o colchão. – Me sol... – ele a calou com um beijo lânguido e explosivo. – Você...
_ Não diga nada. As palavras atrapalham mais do que ajudam nessa hora. – Ele soltou-a apenas para livrar-se de seu sobretudo e camisa. Soltou os laços de seu corpete e sentiu o toque da pele acetinada e quente sob suas mãos grandes e frias. Acariciou seu abdômen e subiu com as mãos por entre seus seios de pêra até alcançar sua nuca. Com o nariz bem próximo de seu pescoço, o vampiro milenar ficou entorpecido com o cheiro do sangue da jovem feiticeira. Uniu sua boca a dela de imediato, tentando distrair-se da vontade de mordê-la.
_ Lucian... – seu corpo estremecia. – Quando mamãe souber o que estamos fazendo...
_ Não fale nada, meu bem.
_Por que não posso... ah, falar? – sua voz era doce e arrastada. Lucian estava se deleitando extremamente com aquela Ceridwen doce e mansa.
_ As palavras são desnecessárias! – E mordiscou-lhe o lábio. – Estou amando esta Ceridwen mansa como um cordeirinho.
_ Ah, é? – sua voz se exaltou. – Basta! Encerramos por aqui! – Ceridwen o empurrou para o lado e levantou-se. Lucian se pôs de pé e agarrou-a pela cintura, beijando seu pescoço. – Não! Não... – Ela se derretia e ele conseguiu levá-la de volta para cama.

Levou apenas dois dias para que os ingredientes fossem reunidos. Sara e sua filha foram as últimas a retornar de sua busca, tendo sido encarregadas de trazer os ingredientes encontrados mais longe, por sua habilidade de voar.
_Asas de uma borboleta vermelha e os olhos de uma velha coruja. – Disse Sara, colocando dois pequenos pacotes sobre a mesa ao lado do ancião Khamael.
_Pétalas de girassol, neve da montanha mais próxima ao Céu. Há algo mais, ancião? – Ceridwen também entregou-lhe sua carga e sentou-se aos pés da mãe.
_Muito bem. Há sim mais uma coisa, que deve ser acrescentada por último, logo antes de a poção ser ministrada. O sangue de um igual.
_Isso não constava da lista. – rebateu Ceri.
_Você não esperava que nós escrevêssemos todos os nossos segredos, não é mesmo, menina?
_E é claro que uma parte não funciona sem a outra. – disse Lucian, com humor na voz.
_É claro. O sangue dá à poção sua fonte de poder e seu alvo, digamos assim.
_Isso quer dizer que se um feiticeiro colocar seu sangue na mistura, a pessoa que beber, se for também um mago, perderá seus poderes?
_Exato menina. Meus parabéns, Talley. Tem uma filha muito inteligente.
Sara sorriu e pousou a mão no ombro da filha com orgulho. Ceri, por sua vez, trocava olhares com Lucian.
_Vamos! – chamou o ancião, impaciente – temos muito que fazer ainda. Talley acenda uma fogueira estável no jardim dos fundos e leve um caldeirão grande... As ervas da Romênia precisam ser secas, mas as pétalas do girassol devem ser mantidas frescas. Ceridwen, pegue o balde de água do poço e o leve para ser abençoado pela lua, no topo da mansão, o mais alto que puder.
_E como o senhor supõe que eu vá fazer isso?! – retorquiu a moça, lembrando-se do enorme balde de ferro do qual ele estava falando.
_Tenho certeza de que você conseguirá se arranjar, criança. – Khamael então lançou um olhar significativo para Lucian, parado silenciosamente atrás da jovem feiticeira. Onde está aquele sugador de sangue que entende de plantas?
_Estou aqui, velho encarquilhado. Não precisa gritar. – Telêmaco apareceu sob o arco da porta, seu rosto estava sério.
Resmungando um para o outro, os dois deixaram a sala.
_É prudente deixarmos os dois sozinhos? – Sara quis saber, virando-se para Lucian. A rusga a respeito de seu relacionamento com Ceridwen, totalmente esquecida.
_Eles passaram muito tempo juntos enquanto estava fora, Sara. Tornaram-se bons amigos.
_Ah claro! Nota-se logo a camaradagem.
Os três riram e começaram a cumprir as ordens do ancião.

McDonovan preparava-se para sair à caça. Como sempre, vestia uma elegante casaca negra com camisa branca, colete de brocado e rendas impecáveis nos punhos e na gola. Abbot entregava-lhe sua capa, quando Lynn o chamou do topo da escada.
_Pois não, minha rosa? – ele virou-se para ela e como sempre, um sorriso curvou os cantos de seus lábios.
_Quero ir com você. – ela disse.
_Caçar?
_Sim. Edwart franziu o cenho e encarou sua esposa por alguns segundos.
_Se eu não soubesse que é impossível, diria que está com febre...
_Oh Edwart! – ela exclamou, frustrada. – Amanhã será um dia importante. Se algo der errado, quero ter certeza de ter lhe dado essa gosto.
_Sinto-me honrado, meu amor, por vocês desistir de seus princípios por minha causa, mas você não precisa fazer isso.
_Mas eu quero! De verdade.
Ele voltou a observar-lhe as feições com cuidado, mas enfim relaxou.
_Certo. Vá se vestir, então. Vamos à ópera esta noite.
Em dois minutos, literalmente, Rhoslyn estava de volta ao hall, usando um magnífico vestido cor de lavanda bordado com cetim azul. O mordomo colocou a capa pesada em seus ombros e Edwart tratou de prender o fecho que a mantinha no lugar.
_Antes ou depois? – ela perguntou, enquanto a carruagem, usada apenas para ocasiões como aquela, cruzava a cidade.
_Antes. Pode ser difícil resistir à sede durante o espetáculo, mesmo para mim.
_Está certo. – Com um suspiro profundo, ela virou o rosto para a janela envidraçada da carruagem.

domingo, 23 de agosto de 2009

Cap 24

_Sara... Quanto tempo levará até termos a poção? – Lynn quis saber.
_A preparação leva quatro dias, mas não sei quão difícil será encontrar os ingredientes...
_Compreendo. Há algo que eu possa fazer para ajudar?
_Temo que não. À vocês só resta esperar... Onde estão Edwart e Telêmaco?
_Foram para a sala principal, entreter os convidados. A maioria partirá amanhã e Edwart preparou algumas diversões para a noite.
_Entendi. Augustus, por que você e Elryk não vão também? Ah e digam às damas que nos juntaremos à elas logo.
_Está bem. Venha meu velho. – o vampiro italiano levantou-se da poltrona e deu um tapa nada gentil no ombro de Elryk, puxando-o em seguida para a porta. – Vamos deixar as garotas fofocando.
_Você queria me dizer algo? – Lynn perguntou, quando os ouvidos masculinos já estavam longe.
_Elryk pretende tomar a poção. – A feiticeira disse simplesmente.
_Você só pode estar brincando!
_Pois não estou... Pode acreditar nisso, Lynn?! Ele quer abrir mão da imortalidade para envelhecer ao meu lado, para me dar filhos!
_Isso é tão lindo, Sara! Elryk é de fato um homem maravilhoso!
_Ele é... – os olhos de Sara brilhavam de amor.
_O que Ceridwen dirá disso?
_Não faço idéia! Alias, nem mesmo sei onde ela está. Tivemos uma discussão no jardim, logo antes do Concílio, ela ficou zangada e fugiu. Deve ter voltado para casa.
_Sem se despedir? Não, não acredito nisso. Ela a ama demais, Sara. Tenho certeza de que Ceri voltará e acolherá Elryk em sua vida.
_Não tenho tanta certeza disso, mas obrigada pelo encorajamento. Melhor irmos para o salão, não é?!

A cerca de quinze quilômetros de Glasgow, num aglomerado de árvores chamado Bull Wood, Lucian estava sentado em um galho alto de um salgueiro, com Ceridwen alguns metro acima.
_A questão é que não posso admitir que minha mãe viva com um vampiro. – dizia a filha de Sara.
_A questão, minha cara, é que você não tem o direito de interferir nisso. – Lucian rebateu. Havia tido uma discussão acalorada com Ceri desde que a interceptara em sua fuga para casa.
_Não consigo imaginar como ela pode beijá-lo... Ficar assim tão... tão perto de um ser como ele.
Como um raio, ele galgou os galhos que o separavam dela, colocando seu rosto a centímetros do delicado nariz.
_Eu sou um ser como ele... Seria assim tão ruim ser beijada por mim? – e então ele a beijou, profunda e lascivamente.
Ceridwen foi incapaz de resistir. Ela imaginara que o toque gelado da pele de um não-morto seria desagradável em sua pele, mas onde quer que as mãos e os lábios de Lucian a tocassem, ela sentia apenas fogo.
_Oh! Pare com isso eu animal! – ela ainda tentou fingir indignação, empurrando-o – Como se atreve a beijar-me?
_Atrevo-me, linda dama, com a confiança que mais de mil anos sobre a terra me conferiram. – E beijou-a novamente. Desta vez, não demorou muito para Lucian sentir os dedos quentes de Ceridwen em seu cabelo flamejante, com um sorriso interno, ele aprofundou o beijo até que ela ficasse sem fôlego.
_Por Danan! Isso deveria ser pecado. Ela disse, respirando rapidamente.
_Mas não é... Você entende agora, o que eu quis dizer, pequena feiticeira?
_Você me beijou apenas para provar seu ponto? – indignada, ela levantou-se do galho, esquecendo-se de onde estava e caiu ao perder o equilíbrio.
Num átimo ele estava junto dela, segurava-a pela cintura. A outra mão, agarrando-se firmemente a um galho, mantinha ambos suspensos no ar.
_Eu a beijei porque desde o primeiro momento em que a vi, os desejei para mim...
O olhar dele era penetrante, quase hipnótico, e Ceri viu-se incapaz de desviar seus olhos. Lucian de Lioncourt era o homem mais belo que ela já vira, vivo ou não-morto.
_Então beije-me mais uma vez. – ela fechou os olhos e esperou pelo contato incandescente, que a tingiu com nova força, fazendo seu coração palpitar.
A paixão de um vampiro é mesmo poderosa, ela pensava, enquanto sentia o vento em seus cabelos, conforme Lucian corria pela floresta, levando-a para casa.
_Está bem... Supondo que esse seu amigo Elryk ame mesmo minha mãe... – Lucian assentiu, sorrindo condescendente, segurando uma das folhas da porta dupla na entrada da mansão. – Ela não viverá para sempre, nem será jovem para sempre, como vocês. O que ele pretende fazer com ela, quando minha mãe se tornar uma anciã enrugada e torta?
Demorou um pouco para que Lucian conseguisse responder. Então aquela era a verdadeira preocupação de Ceridwen... Que Elryk fosse abandonar sua mãe quando ela ficasse velha demais para ser sua mulher.
_Minha linda feiticeira... – ele pousou uma mão no rosto afogueado – Meu amigo se ofereceu para testar a poção de purificação antes que ela seja dada à inimiga de Edwart e Rhoslyn.
_O que isso quer dizer? – ela estava confusa, pois não ficara para assistir a Concílio.
_Que ele pretende se tornar humano novamente, para que possa envelhecer ao lado de sua mãe.
Atônita, Ceridwen ficou observando Lucian subir as escadas de mármore e desaparecer no corredor do segundo andar, então subiu para o quarto de sua mãe. Sara estava debruçada sobre o muro da varanda, pensativa, ao seu lado, em uma grande caneca com líquido fumegante, uma colher de prata mexia preguiçosamente.
_Mãe...?
_Oh Ceri! Você voltou! – Sara a abraçou, mais tranqüila, mas Ceridwen não retribuiu o gesto. – Que foi, meu bem?
_É verdade que o vampiro loiro quer virar humano novamente?
_Quem lhe disse isso?
_Lucian. Ele foi me procurar, para me trazer de volta. – Sara sorriu.
_O querido Lucian... Ele é um bom homem...
_É verdade mãe?
_É sim, querida.
_Ele vai abrir mão da imortalidade para envelhecer com a senhora!
_Eu fiquei tão surpresa quanto você. Nunca pensei que ele me amasse a esse ponto!
Ceridwen então suspirou e recostou-se na mureta de pedra, olhou para a lua no céu e voltou-se para a mãe.
_Elryk realmente a ama, mamãe. Não posso desejar ninguém melhor para você.
_Ah minha menina! Não sabe a alegria que sinto ao ouvi-la se referir a ele pelo nome.
Mãe e filha se abraçaram então, sob a plácida luz da lua.
_Hmm... E o que aconteceu para você mudar de idéia? Se eu a conheço, e por Danan se há alguém que conhece essa sua cabecinha, essa pessoa sou eu... Você não pararia para escutar os argumentos de Lucian. O que houve?
_Logo a senhora saberá.
_Ceridwen, que mistério é esse? O que está tramando?
_Nada, mãe. A senhora ficará feliz quando souber.
Um tanto contrariada, mas satisfeita demais para pensar em coisas ruins, Sara sorriu e passou um braço pelos ombros da filha.
_Precisaremos da sua ajuda para fazer a poção.
_Desculpe não ter ficado, mãe.

Rhoslyn e Edwart haviam saído para caçar juntos, e agora sentavam-se de mãos dadas em uma colina nos limites da cidade.
_Estou com medo, Edwart.
_Por que minha rosa?
_E se essa poção não funcionar? E se eu não conseguir fazer com que Judie a use...?
_A poção vai funcionar, Lynn. Temos os melhores feiticeiros trabalhando nisso. E você não vai fazer nada a respeito de Judie e a poção. Eu farei isso.
_De jeito nenhum! Foi por minha causa que ela ficou com tanta raiva de nós. Eu lidarei com ela.
_Não Rhoslyn. – ele se levantou – Sou seu marido e a proíbo de fazer qualquer coisa a esse respeito!
_Você proíbe? – ela rosnou, levantando-se também. Seus olhos soltavam chispas de fogo na direção dele – Você me... proíbe?! Como ousa dizer uma coisa dessas, Edwart McDonovan?
E pela primeira vez em sua vida, Edwart estava com medo de uma mulher, embora tenha se esforçado ao máximo para não demonstrar.
_Esqueça esse assunto. Você não fará nada, Rhoslyn.
_Veremos. – ela desafiou e saiu correndo pela noite.
Exasperado, ele voltou para casa, para esperá-la com um buquê de flores gigante e um doce sorriso de desculpas dissimuladas. Dissimuladas porque ele não pretendia deixar que Rhoslyn nem mesmo saísse de casa quando a poção ficasse pronta.
Por sua vez, sentada às margens do rio que cruzava a cidade de Glasgow, Lynn montava seu plano.
Na mansão, enquanto todos os feiticeiros dormiam, Sara e Ceridwen, ajudadas por Elryk e Telêmaco, folheavam livros antigos que o ancião Lecabel havia entregado a eles. Sua missão era encontrar a receita da poção de Purificação Suprema.
_Não há nenhuma receita em nenhum destes livros! – exclamou Elryk, exasperado. – Aquele velho ficou caduco faz tempo e ninguém o avisou ainda!
_Elryk! – Sara o admoestou, dando um tapa inofensivo em seu braço de pedra. – Não os insulte, por favor!
_Vocês sugadores de sangue não sabem o que é respeito pelos mais velhos... – murmurou Ceridwen.
_Então chegamos a um impasse, minha cara feiticeira. – disse Telêmaco, em seu primeiro momento de sobriedade desde o casamento. – Pois sentados aqui com você estão dois dos sugadores de sangue mais velhos que você vai encontrar em toda sua vida. Os outros dois estão provavelmente discutindo direito romano lá em baixo, na sala de música.
Ceridwen ficou calada, e disfarçou seu embaraço folheando um enorme livro de feitiços que provavelmente era mais antigo do que ela e a mãe, juntas. E foi então que ela descobriu o segredo da poção.
_Mamãe. – chamou – Veja aqui. Há uma referência à poção.
Sara leu em voz alta: Das ervas que crescem no escuro, usa-se apenas as folhas como na infusão de purificação.
_É a primeira referência que vejo... Será possível que a receita está espalhada pelo livro?
_Vejam! – chamou Telêmaco, apontando uma página amarelada de um pequeno livro de bolso. – Aqui há outra: Assim como para a purificação do corpo corrompido, tome três partes de água de um poço profundo e uma parte de sal marinho.
_Está espalhada por todos os livros!
_Muito engenhoso! Deve ser um sortilégio muito poderoso, para os antigos se preocuparem em esconder assim tão bem. – Elryk ficou pensativo por um instante. – Teremos de ler cada linha de cada um desses livros.
_Mas isso é impossível! – Ceri exclamou. – Não com o tempo que temos!
_Não é não. E esta é a vantagem de se contar com vampiros no seu círculo social, minha cara Ceridwen. Para demonstrar o que queria dizer, Elryk pegou um livro grosso na mão e o folheou, depois jogou em uma pilha ao lado de seu joelho – Tomilho, alfazema, casca de sequóia, a primeira pena de um pássaro branco.
_Uau! Está bem, entendi... – mal teve tempo de conter o enorme bocejo. – Perdão.
_Vocês estão cansadas... Vão para a cama, Sara. Telêmaco e eu terminaremos aqui.
_Está bem, meu amor. Não recusaremos sua oferta. – Sara levantou-se e beijou-o ternamente nos lábios. – Venha, querida.Obedecendo a mãe, Ceri também se levantou e, para surpresa de todos, depositou um beijo sereno na bochecha de Elryk.

domingo, 16 de agosto de 2009

Cap23

A casa estava finalmente vazia, todos os convidados já haviam se retirado. Lynn e Edwart caminhavam de mãos dadas pelo corredor, até o quarto. Ainda faltava muito para o sol nascer e Lynn estava ansiosa por sua noite de núpcias.
Mas ela sabia que a ansiedade não se restringia somente a si, podia sentir a energia nervosa que emanava de seu marido.
Para Edwart as portas duplas eram como o ápice da noite. Sem hesitar pegou Lynn nos braços e abriu a porta devagar. O rangido pareceu-lhe um som extremamente erótico. A lua cheia iluminava o quarto atrás da janela, lançando sua luz prateada sobre a cama de casal.
As mãos ansiosas de Rhoslyn envolveram seu pescoço, enquanto o puxavam para mais perto, para um beijo apaixonado. Ele se deixou envolver pelos braços macios e a puxou para ainda mais perto.
_Roupas demais, ela resmungou, sem se afastar.
Com um sorriso satisfeito Edwart começou a desabotoar a casaca, ao mesmo tempo em que lidava com os laços do vestido azul.
Com uma mão, Lynn soltou seu cabelo do penteado desconfortável e balançou a cabeça, para que eles caíssem livremente pelas costas. Sua outra mão está ocupada com o cordão das calças negras.
Ele corria as mãos pelo corpo dela, tentado sentir seu corpo, cada curva, cada detalhe da pele macia.
Rhoslyn podia sentir suas mãos buscando o contato, e ansiava por seu toque. Esquecendo-se da paciência, rasgou o que restava do vestido, atirando longe os farrapos. O encontro de suas peles foi febril e poderoso.
Vendo quão impaciente sua esposa estava, Edwart terminou de se despir, para sentir ainda mais o seu calor.
Suas bocas finalmente se unem, inflamadas, as línguas entrelaçadas, as mãos afagando cegamente os corpos um do outro. Em segundos, estavam do outro lado do quarto, aos pés da enorme cama revestida de seda vermelha.
Finalmente, não havia mais nada entre seus corpos e a cama era um convite irrecusável para a paixão que os assolava.
As mãos de Rhoslyn correm para o cabelo dele, enquanto sua boca descrevia a curva do seu pescoço. Respirando fundo, ela sentiu o cheiro dele penetrando em sua consciência enquanto o peso do corpo forte a prendia no colchão.
As mãos de Edwart deslizavam pelo seu corpo, sua língua alcançando os seios.
O contraste entre o corpo quente sobre o dela e os lençóis frios deixavam Rhoslyn em chamas e quando a língua atingiu a pele sensível dos seios, suas costas se arquearam involuntariamente. Apenas gemidos saiam de seus lábios.
Rápido como um suspiro, ele segurou-a pelos ombros e trocaram de posição. Agora, ela se acomodava sentada sobre seu abdome, os cabelos se espalhando pelo tórax musculoso, fazendo cócegas em seu peito.
_Agora é minha vez, ela sussurrou e se inclinou para tomar um dos mamilos escuros entre os dentes, brincando com ele e o mordiscando de leve. Seguiu descendo os lábios pelo tórax e abdome e então para a pélvis.
Ele soltou um gemido e sentindo a respiração quente dela na virilha, liberada por uma risada matreira. O desejo era imensurável.
O rosto dela roçava seu membro pulsante e então seus lábios depositaram um beijo leve na virilha antes de começar a subir novamente, para brincar com o outro mamilo, mas seu controle era quase inexistente agora. O gosto de sangue em sua boca provocou um frenesi, seu corpo reage, exigindo satisfação.
Edwart não pôde mais se conter, a fúria da paixão tomando conta de seu corpo, assim como do dela. Com outro movimento rápido, colocou Lynn contra o colchão novamente e se ajoelhou por entre as pernas brancas, tomando-a para si de uma só vez.
_Não há mais como fugir, minha rosa negra... Estamos unidos de todas as formas possíveis, agora.
_E quem disse que eu quero fugir de você, senhor meu marido?!

Após o desjejum, Sara e Ceridwen foram a um passeio matutino. A natureza à volta se revelava sob o brilho do sol, revigorando as duas feiticeiras. Aquele era o primeiro momento em que mãe e filha ficavam a sós sem pressa.
Às margens do lago, Sara sentou-se em um banco de pedra, ao que Ceridwen deitou-se e colocou a cabeça em seu colo. A mãe passou a afagar os cabelos da filha. Um silêncio agradável pairou no jardim que Abbott fazia questão de manter florido, até que as palavras bruscas de Ceri interromperam aquela paz.
_Como foi a noite de núpcias com o vampiro?
_Você o chama de vampiro com tanto preconceito... Não fale assim, por favor. Elryk é um bom homem...
_Ele é meu pai?
_Não querida. Nem eu mesma sei quem é seu pai. Mas tenho certeza de que não é ele.
_Você vai querer que eu o chame de pai agora que se casou com ele? – Sara deu de ombros.
_Eu apenas quero que você o trate com mais respeito e consideração.
_Mas ele é um vampiro mãe! – a garota levantou-se de forma abrupta.
_E nós somos bruxas! Qual a diferença? – Foi a vez de Ceridwen dar de ombros, seus cabelos castanhos, iguais aos da mãe, caindo por sobre o ombro. – Se você não parar com isso, vamos todos acabar ardendo na fogueira!
Ceridwen fechou a cara.
_Querida, Elryk é o meu maior e verdadeiro amor. Queria que você compreendesse e aceitasse isso. Um dia você também se apaixonará.
Os olhos de Ceridwen soltavam chispas. No céu, uma densa nuvem negra se aproximou de onde as duas estavam.
_EU NUNCA ME APAIXONAREI POR UM VAMPIRO! – Então um raio atingiu uma árvore que pegou fogo instantaneamente.
_Ceridwen, pare já com isso! Controle sua têmpera. – uma chuva grossa começou a cair. – Nunca é uma palavra muito forte. Um dia, você pode pagar por sua língua.
_Não me rogue uma praga mãe! Prefiro arder na fogueira a casar com um vampiro! – Ceridwen tomou impulso e alçou vôo.
_Ceridwen!
Cabisbaixa, Sara entrou na mansão e foi para seu quarto. Seu marido já estava desperto.
Como Lucian, Elryk não precisava mais de tanto descanso e passava boa parte da tarde em seu quarto de janelas vedadas. Vendo a preocupação prendendo os ombros de sua pequena feiticeira, a aproximou-se de Sara e abraçou-a beijando levemente seus cabelos.
_Está tudo bem, meu amor? Você me parece agitada, sinto seu coração descompassado. Aconteceu alguma coisa durante o dia?
_Tive uma conversa muito firme com Ceridwen. Acho que exagerei...
_Exagerou? Como assim?
_Acabei lhe rogando uma praga.
_Praga de mãe pega! – exclamou Elryk, estremecendo de brincadeira. Sara riu, sem humor e o abraçou, escondendo o rosto em seu pescoço frio.
_Ela não aceita nosso casamento. Fico muito triste por ela tratá-lo com tanto preconceito.
_Minha querida, ela diz isso porque nunca se apaixonou. Quando ela amar alguém como nós nos amamos, ela vai entender que nada importa quando se está apaixonado.
_Espero que sim. – Após um beijo cheio de amor e ternura, ela se forçou a dar um passo atrás, afastando-se dele. – Tenho de ir. Os anciãos do Concílio estão me esperando.
_Gostaria de poder ir com você.
_Não, meu amor. A reunião do Concílio é para bruxos apenas.
_Eu sei, mas queria estar lá para protegê-la.
_Não preciso de proteção contra meus irmãos, Elryk. Mas se você se sentir melhor, Lucian estará ao meu lado.
_Sim, eu fico mais tranqüilo. Agora vá. Aqueles anciãos me pareceram meio mal-humorados.
Na casa vizinha, a mansão da família Graham, os feiticeiros mais poderosos e influentes daquele mundo aparte se reuniam no grande salão de baile. Sara entrou e foi se juntar a Lucian no centro da pequena multidão.
_Há muito que uma reunião desta magnitude não é convocada. – disse o mais velho dos anciãos, um homem distinto de longas barbas brancas, que facilmente poderia ser confundido com o Mago Merlin das lendas Arturianas. – Talley, minha criança. Diga-nos agora, por que nos chamou aqui.
Sara engoliu em seco e tomou a frente. Lucian seguiu-a, mas ficou um passo atrás.
_Agradeço muito por estarem todos aqui. De verdade. Como devem imaginar, meu casamento foi apenas um pretexto para a chegada de tantos de vocês ao mesmo tempo. A verdade é, meus irmãos, que estas pessoas – ela apontou para Lucian – que os acolheram, correm grande perigo.
_Você nos chamou aqui para ajudar um bando de vampiros? – alguém gritou entre a audiência, cuspindo a última palavra.
_É mais do que isso, irmão. O perigo que ameaça esta família estende-se também a nós.
_Fale sobre esta ameaça, criança. – atalhou o ancião.
_É uma recém-criada. Uma vampira sem treinamento e extremamente vingativa. Ela tem um ódio mortal por Rhoslyn e também por Edwart, que a rejeitou.
_Uma mortal rejeitada já seria um grande problema, mas uma recém-criada...
_Sim. E com a Inquisição sempre tão presente... Judith já denunciou a família McDonovan para a igreja. Graças à Dannan que os Cavaleiros conseguiram tomar conta da situação. Mas foi por pouco. E depois ela espalhou pela cidade a verdade sobre eles.
_Entendo. – o ancião cofiou sua longa barba e sorriu para Sara. – Você foi inteligente, Talley. Um casamento Católico com certeza atenuou a situação.
_Obrigada, senhor. Mas o fato é que agora precisamos nos livrar de Judith Abbott, antes que ela perceba o porque disso tudo.
_E o que você quer de nós?
_Quero que vocês façam com ela o que fizeram comigo.
_Você quer que o Concílio purifique a mulher vampira? – exasperou-se outro ancião.
_Exato. – Naquele instante, a pequena multidão irrompeu em brados furiosos, alguns protestando, outros apoiando.
_Isso é um ultraje! – disse o segundo ancião. O poder de Dannan não é para ser usado por qualquer coisa. O que nos pede, Talley, não diz respeito à Deusa.
_É claro que diz! Judie é uma ameaça a todos nós, e aos humanos também e nós juramos protegê-los!
_Isso é verdade, atalhou o feiticeiro mais velho ainda vivo, Lecabel. – Mas a mulher vampira é de responsabilidade de seus iguais, não nossa.
_No que me diz respeito, essa mulher não merece nossa atenção, muito menos que desperdicemos as bênçãos da Deusa. Digo para irmos embora.
_Acalme-se, irmão. Talley é uma das filhas queridas de Dannan, e se ela nos pede ajuda, devemos ajudar. Tanto quanto nos for possível.
_Obrigada senhor Lecabel... – o ancião levantou uma mão magra, interrompendo-a.
_Não faremos o que nos pede, pois uma alma a ser purificada precisa querer a purificação e precisa seguir a Deusa por vinte anos, como pagamento pela benção. E não creio que essa Judith estará de acordo com nada disso...
_Não. De fato, não. Mas como eu nunca soube disso?
_Você não precisava saber, minha filha.
_Mas então... Não há nada que possamos fazer?
_Há sim Talley. Uma poção pode remover a maldição dos Andarilhos. É magia muito antiga e poderosa e não é qualquer um que pode lidar com ela.
_Mas há esperança, então?! Quem é a pessoa que pode fazer esta poção?
_Khamael.
Por um momento, ninguém disse nada. Surpresos que fosse a frágil figura do velho Khamael, a única capaz de ajudar.
Sara, por sua vez, permanecia calada pelo choque de sua esperança partida, pois Khamael era o ancião que se opusera a ajudar desde o primeiro momento.
_Pois eu não farei. Disse o homem em questão. – Não perturbarei os Espíritos antigos por isso.
_Então teremos um problema aqui, meu caro senhor. – Lucian se manifestou pela primeira vez desde o inicio da reunião.
_Lucian de Lioncourt. – disse o ancião Lecabel, com um sorriso. – É bom vê-lo, meu amigo. Tem algo a dizer em defesa da causa de Talley.
_É bom vê-lo também, Lecabel... Sim, tenho algo a dizer. Meu senhor Khamael, devo lembrá-lo de que está preso ao preceito de lealdade ao anfitrião. Você deve algo à pessoa que lhe concedeu abrigo.
_Eu não estava pedindo por abrigo! – rebateu o ancião.
_Lucian está certo, irmão. Você deve ajuda aos McDonovan.
_Não gostaria que nos ajudasse contrariado, senhor Khamael. – disse Sara, dando um passo à frente. – Seu poder é imenso, mas sua energia positiva fará tanto por nós, quanto ele.
_Não se iluda, menina. Eu a ajudarei, mas apenas por causa do preceito.
Sara soltou um suspiro resignado, mas sorriu. Teriam a ajuda necessária e era só isso que importava.
_Estou a sua disposição para o que precisar, senhor. – Ela disse, afastando-se de Lucian.
_É bom mesmo, menina. Essa poção vai me dar muito trabalho. Serão quatro dias muito longos.
_Quatro dias?!
_Você quer fazer o impossível e ainda quer que seja rápido? – ralhou o ancião.
_Perdoe-me senhor Khamael.
_Crianças!
Sara segurou uma risadinha e fez um sinal para que Khamael passasse pela porta antes dela.
_Gostaria de apresentá-lo formalmente aos donos da casa, senhor. Pode vir comigo?
_Certo...
Como de costume, os vampiros estavam reunidos na sala de musica, mas naquele inicio de noite, não havia melodias alegres atrás daquelas portas.
_Boa noite a todos. – Sara disse, solene. – Rhoslyn, Edwart. Gostaria que conhecessem Khamael, um dos anciãos feiticeiros. Ele nos ajudará com a poção para Judie.
_Poção? Pensei que você tivesse falado de um ritual, Sara. – Lynn questionou, preocupada.
_Sim... Bem, eu estava mal informada, peço desculpas a vocês.
_O ritual mencionado pela sacerdotisa é apenas para pessoas que queriam a mudança, que queiram ser purificados e exige um alto preço do indivíduo.
_E a poção fará a mesma coisa...? – questionou Edwart.
_Esperamos que sim.
_Esperam? – indignado, Telêmaco levantou-se da poltrona em que estava e avançou para o velho. – Vocês se proclamam tão poderosos e agora vem me dizer que todo nosso esforço pode não adiantar de nada?
_Controle-se, amigo. – Augustus pousou uma mão calmante no braço de Telêmaco, e o fez sentar-se novamente.
_Esta é uma magia muito poderosa, mas muito antiga também. O conhecimento de como invocá-la está quase esquecido, mesmo por nós, os mais velhos. Não posso garantir que o efeito será o desejado.
_A poção pode ser testada, antes? – Elryk falou de repente, assustando a todos.
_Acredito que sim... – o ancião ficou pensativo por um instante. – Não seria possível fazer apenas uma dose, então penso que uma parte poderia ser destinada à um teste de eficiência, sim. Mas... Se ela funcionar, o vampiro que servirá de cobaia não poderá voltar a ser um Filho da Noite.
_Por que não? – Lynn perguntou, sem pensar.
_Seria uma ofensa à Deusa. – Sara respondeu, sem desviar os olhos de Elryk. Khamael apenas assentiu. – Elryk... no que está pensando?
_Não... Não é nada. Esqueça isso, está bem?! – então ele a beijou na testa e saiu.
_Eu... lhe agradeço de todo o coração por sua ajuda, senhor Khamael. E ofereço ao senhor minha casa e meus criados para o que precisar.
_Certo, certo. Agora vou me recolher. Talley, esteja pronta para me ajudar amanhã bem cedo e traga aqueles pelos de gato que costumava ter, se é que não os usou todos em suas brincadeiras.
Depois que o velho havia saído de vista, Sara virou-se para os vampiros e sorriu, sem jeito.
_Me desculpem por isso. Ele tem um temperamento difícil.
_E algo me diz que não está feliz em nos ajudar... – apontou Augustus.
_Não ele não está. Nem um pouco, na verdade, mas Lecabel ordenou-lhe que nos ajudasse, então ele o fará. Seu status perante o Concílio e todo o povo é importante demais pra Khamael, para que ele se arrisque desobedecendo a uma ordem direta.
_E é só isso que importa...
_Sim. Agora, me dêem licença, por favor. Preciso ver o que meu marido está tramando.
Ao fechou a porta atrás de si, Sara soltou um suspiro profundo. Graças a Deusa havia um modo de remediar a situação. Quando ergueu a cabeça e olhou através do corredor, viu Elryk no que parecia ser uma discussão acalorada com o feiticeiro ancião.
_Elryk? – chamou. Khamael, então virou abruptamente o rosto para olhá-la e logo em seguida se afastou pelo corredor. Sara andou até onde seu marido permanecera parado. –Elryk, você não vai fazer isso! Eu não vou permitir!
_Sara ouça-me, por favor!
_Não Elryk! Não quero que você abra mão de quem você é por minha causa! Não vou permitir! repetiu.
_Meu amor! – ele a abraçou. – Antes de ser um vampiro, eu sou primeiro e principalmente um homem, com defeitos, qualidade e paixões. O predador é apenas uma parte de mim, que me ajudou a ser o que sou hoje, mas apenas uma parte... – apertou-a mais junto a si e beijo-lhe os lábios com uma ternura tão grande que trouxe lágrimas aos olhos de Sara. – Quero fazê-la feliz, incondicionalmente.
_Ah meu querido... Você não precisa desistir de sua imortalidade por mim. Eu posso me manter jovem por muito tempo, para ficar ao seu lado.
_Aí está o X da questão, Sara! Já vivi tempo demais. Estou farto disso tudo! Quero envelhecer ao seu lado, quero lhe dar filhos, quero... Quero morrer, bem velhinho ao seu lado.
_Se é o que você quer Elryk, acatarei sua vontade de bom grado. Tudo o que importa para mim é ter você ao meu lado.
_Obrigado, minha querida. Vamos voltar para a sala?